quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Noite estrelada
E tenho sono leve. Acordo com qualquer barulho, até mesmo com o de uma pena que cai sobre o asfalto. Acordo sobressaltado com o clamor do mundo. "Não me deixes, imploro-te", "Não serei mais seu amigo, não espere mais ligações minhas, você não é engraçado", "Não te beijarei, só beijo quem é normal", "Se você me ama, por favor, me mate", "Você é um ótimo profissional, mas não serve para o cargo , porque você é um gênio", "Dorme ,filho, assim a fome passa", "Meu livro Etiqueta por uma vida melhor não me aconselha a dirigir palavras a pessoas da sua laia", "Como você é indecente, você não sofre como eu.". "Desculpe mas não posso fazer nada por você, a lei não permite; Mas eu posso morrer, não tem como abrir uma exceção?; Não,devemos seguir fielmente nossas leis para que tenhamos uma sociedade perfeita", "Desculpe, nunca mais confiarei em você, você não é racional e sensato, você não me bajulou". Sempre que ouço a palavra "desculpa", fico apavorado. São os murmúrios que consigo nitidamente ouvir. Aproximo-me da janela, olho para baixo,vejo um mendigo entorpecido com olhar de alívio. Olho para cima, e lá estão minhas amigas mais agradáveis, as estrelas, que amainam minha solidão. Esperançoso, fico encantado com aquantidade de moradas desse universo. Ouvindo o chorar surdo dos humanos, grito aos habitantes celestes que venham me buscar. Tenho curiosidade irresistível para conhecer novas civilizações. Será que minha voz conseguirá atravessar distâncias de anos-luz. Não acredito que as estrelas estajam tão longe da nós, como dizem os cientistas. Onde será que há paz? Naquela mais apagadinha, ou naquela mais cintilante? Onde será a residência de Deus? Será que aquela minha estrela preferida não existe mais? Quando é que eles virão? Peço um sinal ao meu anjo da guarda. Atendeu-me uma vez, quando finalmente chorei, depois de décadas sem derramar uma lágrima, por considerar-me mau. Uma bela estrela-cadente caíu, pedi pelos que passam anônimos no mundo, e não deixam vestígios. Pedi pelos loucos abandonados em sanatórios imundos, que gritam à noite, pensando estar a morte à espreita. Pedi pelos solitários confinados em quartinhos cinzas com vistas para algum muro pixado. Pedi pelos infelizes que pedem dinheiro na rua para poderem se entorpecer. Pedi pelos que não têm fé e continuam devido ao medo da morte. Pedi pelos separados, que perdem a alma com a partida do amante. Pedi pelos que só sabem amar contrariando as leis divinas. Pedi pelos belos e superdotados que vivem como ilhas solitárias entre a mediocridade. Pedi pelos que se anestesiam para não morrer, mas acabam morrendo em vida. Pedi pelos que se revoltam contra a crueldade de Deus, e buscam o Diabo. Ou pelos que louvam seus desígnios e acabam se resignando à desgraça. Pedi pelos condenados à morte, que sabem a data e a hora do fim.Pedi pelos miseráveis do mundo que, nas romarias, esbugalham os olhos marejados, levantam a mão aos céus e pedem clemência. Pedi por aqueles que dependem de seus carrascos e aprendem a gostar da dor. Pedi por mim, enfim.
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