sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Tô de olho em você

Você chega calado, com um ar fatigado, pedindo arrego ao mundo. Cansado de tantos nãos, de tanto tédio, da vida de gado, você me olha pedindo salvação. Sua fragilidade flagrante entristece seus olhos claros. Quando percebe que não vai suportar, coloca o opressor em xeque, lançando alguma piada cortante, que no fundo quer sempre dizer: você vai mesmo me matar? Vive da esperança de conseguir um tesouro, que os fatos apontam não existir. Vive entre a dúvida e a certeza, acreditando ser a primeira a realidade e a última a fantasia, mesmo sem saber se se está sendo coerente. Sente-se muito sozinho, com alguma dor rara, não catalogada pela medicina. Vive na contra-mão de tudo, discordando das unanimidades, perguntando a Deus a razão de ser tão lúcido. Sua tragédia é o seu charme. Seu suplício é bonito.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Homens

Brutos amantes
Carentes
Sem cuidado, não se criam
Carrascos sexuais
Tarados
Viris
Bonitos na força
Musculosos
Guerreiros
Crianças perigosas
Ingênuos
Violentos

Povo

Tenho em mente um projeto de fotografar figuras tipicamente populares, e fazer, depois, uma exposição para o assombro da humanidade. Pretendo ir a campo, nos pontos de ônibus, repartições públicas, feiras, shows de forró, igrejas evangélicas, etc. Verificar-se-á o quanto a natureza, pródiga nos bichos e plantas, foi medíocre com os humanos. A imensa maioria é feia. Traços desarmoniosos, pele oliosa, acne, trajes cafonas, mal feitos, uma miséria só. Isso só na aparência. Na essência, são desconfiados, medrosos, invejosos, religiosos e, finalmente, moralistas ferrenhos. Têm pouca tolerância com aquilo que "não é de Deus". Gostam de comprar jornais sensacionalistas e violentos, que se torcidos, cai sangue. Têm uma tara por crimes, pois gostam de julgar os outros, têm prazer em condenar, execrar os criminosos, e se apiedarem das vítimas. O mundo é dividido entre o Bem, ou o Mal, totalmente separados. Não concebem que o diabo pode ser benéfico, e Deus cruel. O Lula deveria estabelecer execuções de criminosos em praça pública, seria o maior sucesso. A mostra serveria, talvez, para avaliarmos, filosoficamente falando, se tal mediocridade é culpa de Deus, ou dos Homens, criaturas mais desgraçadas do universo, justamente devido à sua suposta maior dádiva: pensar e, logo, existir.

Fim

Na sessão de psicoterapia dessa semana, especulou-se sobre as posíveis causas de minha ansiedade crônica. Chegamos, primeiro, à questão da dúvida, do incerto, da imprevisibilidade da vida. Sim, realmente, a possibilidade de você estar andando na rua, e cair um toco, uma marquise na sua cabeça e te matar, é desagradável. Bom, mais angustiante ainda é ser condenado ao fim, que embora seja a única certeza da vida, também tem um componente de dúvida, pois não se sabe se algo do outro lado de lá. Eu dise que o fim me desencorajava a construir, pois do que adianta fazê-lo, se você parte, supostamente sem levar nada desse mundo. A transitoriedade parece, a mim, contrária à tentativa de construção, que está mais para a imortalidade, para a perpetuação. Ela perguntou se eu acharia bom se tivesse certeza de que não haveria fim. Radicalizou-se no sentido contrário. Sem mudança seria insuportável. Talvez até a juventude eterna seria enjoativa. Bom, talvez seja melhor o que Deus fez mesmo: a dúvida. De um lado, a concretude dos fatos a dizer que não há nada. De outro, a intuição, os mistérios e o sentimento de transcendência a apontar, mais sutilmente, que há alguma coisa.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Ditadura da cegueira

A massa, quando ignorante(há algum lugar onde esta não o é?) surge como o ator social mais cruel. Tiraniza o corpo e a alma, como disse Oscar Wilde. Ferrenhamente apegada a valores morais, munida de baixa capacidade de crítica, sendo portanto, cega, a massa é facilmente manipulada e convertida ao fanatismo, exemplo do nazismo.O povo segue as regras à risca, não tendo capacidade de questioná-las, ou mesmo, abrir exceções em nome de maior harmonia social. O poder que emana de tal agente, talvez, seja o mais hipócrita e mentiroso. A ditadura do politicamente correto dá margem a demagogias, como a exaltação de instituições como família, pátria e Deus, que levadas ao campo do fanatismo e intolerância, tornam-se demasiadamente opressoras. O que se vê, no jogo político, são declarações ridículas, como fumei, mas não traguei, ou, a campanha moralista de Marta Suplicy, que insinuou a homossexualidade de seu adversário. E o pior é que o povo cai nessa modorra, rejeita candidaos homossexuais e/ou ateus, muitas vezes mais esclarecidos e sinceros, e aceita fingidos e hipócritas. O povo é crédulo. Mais do que questões raciais, ou materiais, o que caracteriza o povo é a questão de essência, de alma. A educação separa irremediavelmente a elite letrada, do povo ignorante, em termos de caráter e alma. A eduação aguça o senso crítico, na medida em que, quanto mais estudamos, mais vemos que o saber não é absoluto e, que, raras são as verdades absolutas e incontestáveis. A democracia composta por um povo sem esclarecimento transforma-se numa ditadura de cegos, cruel e injusta, baseada na unanimidade, que, nese caso, é burra e fanática, persecutória. Vide a atração que o crime exerce sobre as massas, estabelecendo-se uma situação de caça às bruxas e exorcismo do mal inerente ao mundo. A imprensa democrática enfatiza este fenômeno, havendo grande espaço para a divulgação de crimes de toda espécie.

domingo, 12 de outubro de 2008

Olhar, espelho da alma

Quando quis ir para uma clínica de repouso, disseram-me que eu iria para o esgoto. Viveria com os ditos loucos. Disse que iria me internar para fugir da solidão, o que não foi compreendido. Sou adepto do antes mal-acompanhado do que só, o que também não foi compreedido. Pois bem, fui parar na capital do país, cidade planejada, impessoal, com nomes de ruas e endereços estranhos, marcianos, tipo: w3 norte, asa sul. Fruto da modernidade industrial. Tenho mais facilidade em lidar com "loucos", do que com os normais. Os normais são orgulhosos, pretensiosos e superficiais. Acham trabalhar atrás de um computador 12 h por dia, ver jornal nacional e dormir uma vida razoável. Os olhares me chamam a atenção. Todos ali vivem na fantasia, fogem da realidade. Um motivo a mais para eu ter simpatia por eles. Seus olhares são aflitos, de quem é forçado a "aterrissar". Quando deliram, assumem feições proféticas, como se tivessem decifrado o segredo do universo. A vida, para eles, não é considerada tão difícil, embora dêem sinal de que sofrem mais do que os normais. Incapazes de embarcar na loucura coletiva baseada no binômio trabalho-consumo, vivem a vida à margem, sendo vilipendiados e incompreendidos. Eles têm muito medo. Afinal, quem não é muito natural acaba morrendo. Vidas inteiras de desencontros, rejeições, abandono. Chegam ao fim sozinhos, tutelados por algum familiar. A morte os ronda com maior voracidade, chegando ao ponto de sentirem, à noite, cheiro de flor e vela. Um cheiro misterioso e freqüente. Há loucos de todo tipo: calados, falantes, perseguidos, ungidos, delírios agradáveis, ou horripilantes. E quando tomam o anti-psicótico, ficam com olhares aflitos. É uma dó tirá-los da irrealidade.
 
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