sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Save m nice young men
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
Noite estrelada
Cats Musical - Memory
Daylight
See the dew on the sunflower
And a rose that is fading
Roses whither away
Like the sunflower
I yearn to turn my face to the dawn
I am waiting for the day . . .
Midnight
Not a sound from the pavement
Has the moon lost her memory?
She is smiling alone
In the lamplight
The withered leaves collect at my feet
And the wind begins to moan
Memory
All alone in the moonlight
I can smile at the old days
I was beautiful then
I remember the time I knew what happiness was
Let the memory live again
Every streetlamp
Seems to beat a fatalistic warning
Someone mutters
And the streetlamp gutters
And soon it will be morning
Daylight
I must wait for the sunrise
I must think of a new life
And I musn't give in
When the dawn comes
Tonight will be a memory too
And a new day will begin
Burnt out ends of smoky days
The stale cold smell of morning
The streetlamp dies, another night is over
Another day is dawning
Touch me
It's so easy to leave me
All alone with the memory
Of my days in the sun
If you touch me
You'll understand what happiness is
Look
A new day has begun
Quando vi essa parte do musical, não contive meu pranto
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
A serpente
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Sementes secas
domingo, 7 de dezembro de 2008
Ensolarado dia
sábado, 6 de dezembro de 2008
Extrema -unção
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Beardsley´s illustrations for Wilde´s Salomé

"A carne deseja o espírito, mas não encontra reciprocidade. Beija-me, infame profeta! Ou a desgraça varrerá nossas vidas. Veja como a lua está pálida.Está a apontar a véspera do assassínio"
/

"Já que me recusaste teus lábios vermelhos e quentes, hei de beijá-los frios e pálidos pela morte. Que tristeza seu corpo sem espírito. Era teu espírito, e não teu corpo, que sempre desejei"
"Já que me recusaste teu beijo vivo e quente, hei de beijar teus mortos lábios pálios e gélidos. Ninguém terá esse privilégio, embora não o seja. Não desejavateu corpo, mas teu espírito"
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Moonlight lover
Civilização
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Maldito amor
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Deus lhe pague
domingo, 30 de novembro de 2008
Miguel acha o amor

Mãe,
Chegou-me um moço com olhos bondosos. Em pouco tempo reconheceu minha face infeliz, dissecou minhas fraquezas. Chamei-o gênio.“Você pensa que seus males são irreversíveis, incuráveis. Não é verdade, há cura, milagres acontecem a todo instante, não são percebidos porque são muito sutis, e seguem uma lógica insondável e contrária à filosofia humana, que tem problemas em reconhecer a essência das coisas. Os milagres podem vir até mesmo vestidos de desgraça. Por exemplo, a morte prematura de um filho, por mais dolorosa que seja, não se compara a dor de vê-lo, quando adulto, enlouquecer de tanta infelicidade. A loucura pode nos poupar da dor. Alguns, ao serem internados em sanatórios, encontram o amor e enxergam a face de Deus. Os milagres são de difícil percepção, se analisamos as parte, e não o todo. Ao final da vida, no leito de morte, os homens percebem que suas vidas foram cheias de milagres, e que Deus é um gênio aparentemente pouco óbvio, mas na essência óbvio. Seu caso não é grave. Venha comigo; para mim, podes transbordar seus pensamentos incestuosos, inconfessáveis e melancólicos, que certamente todos têm. Nunca hei de condenar-te, ou horrorizar-me. Ajudarei-te”. Depois de mais um tempo fiquei admirado por não ser do seu feitio rejeitar os infelizes, condenar criminosos, ao contrário, acho que reza por eles, ou tentar eliminar o mal do mundo. Pensei estar falando com algum anjo habitante do palácio de Deus. Finalmente, depois de anos pensando ter sido abandonado pelo criador, encontrei eu, Madalena, Cristo. Quão não é belo o encontro de um infeliz pecador com um anjo luminoso? Declarei amá-lo e junto dele seguir. “Não, vamos com calma. O amor de qualquer maneira mata. Se somos amados por carrascos, morremos pela escravidão e seu fardo. Se somos amados por anjos, morremos pelo excesso de liberdade e felicidade. Difícil a questão do amor. Não lhe prometo o amor, mas se quiseres vir junto a mim, sinta-se encorajado.” “Mas de todo jeito morreremos, e quero ser docemente assassinado pelo seu amor. Por favor, te suplico”, disse eu. “Venha, o amor é inevitável”. Fiquei hipnotizado, não questionei nada e me dispus a segui-lo para qualquer parte. Que assim seja, amém.
sábado, 29 de novembro de 2008
Sábado em Copacabana Dorival Caymmi Carlos Guinle
Esta é Copacabana, ampla lagunaCurva e horizonte, arco de amor vibrandoSuas flechas de luz contra o infinito.Aqui meus olhos desnudaram estrelasAqui meus braços discursaram à luaDesabrochavam feras dos meus passosNas florestas de dor que percorriam.Copacabana, praia de memórias!Quantos êxtases, quantas madrugadasEm teu colo marítimo!
– Esta é a areia
Que eu tanto enlameei com minhas lágrimas– Aquele é o bar maldito. Podes verNaquele escuro ali? É um obeliscoDe treva – cone erguido pela noitePara marcar por toda a eternidadeO lugar onde o poeta foi perjuro.Ali tombei, ali beijei-te ansiadoComo se a vida fosse terminarNaquele louco embate. Ali canteiÀ lua branca, cheio de bebidaAli menti, ali me cilicieiPara gozo da aurora pervertida.
Sobre o banco de pedra que ali tensNasceu uma canção. Ali fui mártirFui réprobo, fui bárbaro, fui santoAqui encontrarás minhas pegadasE pedaços de mim por cada canto.Numa gota de sangue numa pedraAli estou eu. Num grito de socorroEntreouvido na noite, ali estou eu.No eco longínquo e áspero do morroAli estou eu. Vês tu essa estruturaDe apartamento como uma colmeiaGigantesca? em muitos penetreiTendo a guiar-me apenas o perfumeDe um sexo de mulher a palpitarComo uma flor carnívora na treva.Copacabana! ah, cidadela forteDesta minha paixão! a velha luaFicava de seu nicho me assistindoBeber, e eu muita vez a vi luzindoNo meu copo de uísque, branca e puraA destilar tristeza e poesia.Copacabana! réstia de edifíciosCujos nomes dão nome ao sentimento!Foi no Leme que vi nascer o ventoCerta manhã, na praia. Uma mulherToda de negro no horizonte extremoEntre muitos fantasmas me esperava:A moça dos antúrios, deslembradaA senhora dos círios, cuja alcovaO piscar do farol iluminavaComo a marcar o pulso da paixãoMorrendo intermitentemente. E aindaExiste em algum lugar um gesto alto,Um brilhar de punhal, um riso acústicoQue não morreu. Ou certa porta abertaPara a infelicidade: inesquecívelFrincha de luz a separar-me apenasDo irremediável. Ou o abismo abertoEmbaixo, elástico, e o meu ser dispersoNo espaço em torno, e o vento me chamandoMe convidando a voar... (Ah, muitas mortesMorri entre essas máquinas erguidasContra o Tempo!) Ou também o desesperoDe andar como um metrônomo para cáE para lá, marcando o passo do impossívelÀ espera do segredo, do milagreDa poesia.
Tu, Copacabana,Mais que nenhuma outra foste a arenaOnde o poeta lutou contra o invisívelE onde encontrou enfim sua poesiaTalvez pequena, mas suficientePara justificar uma existênciaQue sem ela seria incompreensível.
Los Angeles, 1948
Vinícius de Moraes
English version for the precedent topic
Kisses from your Brazilian lover - Rio, summer 2008
Bairro das delícias
Mãe,
Para os amantes dos prazeres ilusórios, e, portanto ilegais, os caminhos levam ao bairro das delícias, conhecido, pelos que odeiam os sonhos, como bairro proibido. Todos fingem nunca ter-lhe ouvido falar, mas com perspicácia e uma dose de charmosa malícia, logo se descobre onde fica. Tomando um taxi, percebemos estar chegando pela decadência crescente dos prédios, pelo cheiro malsão das taras, pelo bafo amargo e úmido dos prostíbulos, pelas gargalhadas vulgares de putas velhas, abandonadas por Afrodite, e que recorrem a inexplicáveis expedientes para continuar seu ofício. Meninos miseráveis, que, recém-saídos do inferno, vagam com olhos espantados e intranqüilos a procura de anjos caídos. Escravos horrendos, com feições apodrecidas pela pesada carga do mundo, sussurram nos ouvidos dos misteriosos e belos transeuntes o preço das ilusões. O prazer, na civilização só pode estar na ilusão; a realidade é, para os civilizados, tédio e tortura. Agora entendo, mãe, a necessidade dos deliciosos escapes por ti mencionados, e tenho recorrido a eles. Certa vez, estava naquele speakeasy costumeiro, iludido por Baco. Tudo parecia ter solução, e se não tivesse, que se danasse, o medo não me amedrontava mais, a solidão, não passava de uma insossa amiga, que ri de tudo o que falamos, mas não nos faz rir. Percebi, lá pelas tantas, um rebuliço, meninas gritando, eufóricas, suplicando que fossem escolhidas para passar a noite com um misterioso freqüentador. Quem é ele? - perguntei. “É um demônio, ou um deus, não sei, que está chegando. É a morte travestida de vida, um nobre rapaz que mata suas amantes de tanto êxtase. Seu amor não é humano, seu sexo provoca um prazer que não cabe à vida e aos mortais. Dizem que com ele os orgasmos são fatais. As jovens moças depois de sentir o prazer reinante no Olimpo, se recusam a voltar à vida, e suplicam pela morte. Ele as mata de forma indolor, sendo muito admirado por isso. Todas nós sonhamos com essa morte, e concorremos a tapas para tê-la.” Mesmo sendo o prazer o pai da mais mortal e duradoura escravidão, aquela que te destrói com a delicadeza das poesias e canções, não me importo em ser seu leal cativo. Com o raiar do sol, a luz provoca choro e gritaria. “É o fim”, “O delírio acabou”, “A luz deixa-nos horrendos, que horror, a realidade é pérfida” são frases ditas com desespero. Como vampiros, todos voltam às suas catacumbas, para que suas peles alvas não sejam queimadas. É estranho, mas pressinto que neste inferno hei de encontrar o amor.
Fé na humanidade
Mãe,
Meu estado de espírito melhorou muito, desde que cheguei à capital. No sertão, poderia aparecer-me a Virgem Maria, e mesmo assim continuaria desesperado e sem esperança. Poderia acontecer os mais belos milagres, que não sairia da pasmaceira, da solidão. Bem sabes que a vida no sertão sem vícios é insuportável. O entorpecimento é condição imprescindível para suportar o silêncio, o pôr-do-sol melancólico, o luar solitário. Meu único consolo era o choro do sertanejo, tocando seu violão surrado e cantando a tristeza, o abandono, o isolamento, a natureza, com sua beleza genial, de difícil compreensão e tradução, indiferente ao homem, sua única e cativa platéia, criatura sui-generis, estrangeira às demais, portadora das maiores glórias e misérias. Tudo isso nos faz sentir mais pequenos do que vermes, completamente abandonados e sós, justamente nós, criaturas tão orgulhosas, consideradas espelho do criador. Aqui na cidade, não temos tempo para pensar, por isso não nos angustiamos tanto. Sinto muita alegria em acordar e ouvir o burburinho agitado, o barulho de carros, pessoas, deslocando-se em direção ao ganha-pão. Ao contrário do sertão, meu sono aqui é pesado, acordo com o dia claro, e a vida
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Miguel decide trabalhar - otimismo
Mãe,
Não me é mais possível viver a vida no ócio contemplativo, luxo exclusivo da nobreza. Terei, enfim, que trabalhar, fazer parte da complexa engrenagem que move a humanidade. É claro que não sou romântico quanto ao trabalho, creio que a maioria não se beneficia dele. Trabalhar é um sacrifício feito por muitos, cujas benesses são desfrutadas por privilegiados pela sorte, pelo talento, e demais características que distinguem os homens. Quanto ao dinheiro, tive alguns insights a respeito da arte de ganhá-lo. Tenho que achar um jeito de facilitar a vida humana, torná-la menos sofrível e trabalhosa. Como esse raciocínio é óbvio, e só agora consigo vislumbrá-lo. Assim, no emprego que conseguir, hei de usar minha inteligência para descobrir métodos que economizem esforços, e que gerem qualidade. Esses dois fatores aliados permitirão a oferta de produtos e serviços altamente satisfatórios e baratos, desafio do marketing. Sim, estou conseguindo perceber o quanto o trabalho, que por um lado mata, pode ser útil. Quando considerado como rito de amor ao semelhante, dignifica-nos, é-nos doce veneno. Mas que estou eu a dizer? Serei um mero trabalhador braçal. Mesmo assim, não deixarei de pensar e procurarei desenvolver relações amistosas com os superiores, mostrando-lhes minha satisfação de ser, por eles, liderado. A capacidade de liderança é o sonho de todo chefe. Inspirar os subordinados, fazê-los perceber, valorizar e identificarem-se com o sentido do desafio proposto, inspirar-lhes sonhos, até mesmo delírios, não é para qualquer um. Não há melhor política do que fazê-los crer que o sejam. Caso o seja, de verdade, tanto melhor. Tentarei aos poucos infiltrar minhas idéias, que Deus há permitir que sejam lúcidas, para progredir. Sempre visando à facilitação da vida. Deseje-me sorte, boa mãe, depois de muito tempo, creio que recuperei a sensatez e o otimismo.
Hino aos benzodiazepínicos
quarta-feira, 26 de novembro de 2008
A beleza dos homens vem me tirando a paz. Descobri que a luxúria é, em mim, o pecado mais pronunciado. Não consigo passar pelos belos sem encará-los de maneira agressiva, indecente. Não consigo disfarçar meu grande apetite sexual. A maioria fica constrangida, sai de perto, ou fingem que não viram. Que horror a indiferença e o asco com que me tratam! São todos narcísicos, desprezam o amor, os infelizes, as aberrações. Guardam sua beleza a sete chaves, escolhem um pequeno e seleto grupo para compor sua platéia. Dizem que seus espetáculos são grotescos, insanos e decepcionantes, saindo a maioria acreditando ser a beleza uma maldição. É o que ouço dos poetas de bar, prostitutas, aleijados, miseráveis de toda sorte, que me adoram. Comunico-lhe que perdi minha virgindade, da pior maneira possível. Vi o quanto o mundo pode ser sinistro. Recorri aos speakeasys da vida, onde o erro floresce, as cicatrizes são um charme, aberrações recebem elogios, velhos enfiam suas asquerosas línguas nos ouvidos de jovens desesperadas e miseráveis. Fui com um homem, a princípio charmoso, viajado, experiente, que disse ser o demônio mais fascinante e mais próximo dos humanos do que Deus. “Veja na literatura, por exemplo, quantas menções ao demônio. Como conseguimos intuí-lo de maneira mais detalhista. Não é tão misterioso quanto Deus. Como o homem tem fascínio pelo tormento, pela tragédia, pelo crime, pelas injustiças. São belas, esteticamente falando. Nada nos comove mais. Talvez essa seja a beleza do humano, ser desprotegido, nu e injustiçado pela natureza. Por isso Prometeu cedeu-nos o fogo. Alguns ingênuos corações afirmam ser o nosso intelecto nossa danação maior. Mas será que conseguiríamos nós viver sem refletir, transgredir, progredir. Conseguiríamos nós resignar ante aos caprichos de um criador zombeteiro e déspota. O intelecto não se submete à autoridade de leis grosseiras. Seríamos desgraçados de todo jeito. Melhor sermos nós a arquitetar nossa miséria. Esse é o nosso charme. A danação, o nosso trunfo.” E o amor, a gratidão, o perdão, onde ficam, perguntei. "Não se iluda quanto a isso, o amor, desconheço". Perdi minha virgindade com o próprio Lúcifer. Sim, o demônio é convincente, e quem quiser revolução tem nele ótimo aliado. O sexo foi seco. No ápice do gozo, olhou-me com desprezo. Depois vestiu-se e se pôs a fitar o mundo com os olhos rasos de revolta Um beijo afetuoso,
Miguel
Querido filho,
Já esperava seu deslumbramento pela capital. É, talvez, a cidade mais bonita do mundo. No entanto, a beleza não nasce do nada, não é construída sem esforço e engenho. Para que ela exista, algumas tragédias e sacrifícios devem ser feitos. Os suntuosos palácios custaram a vida de dezenas de escravos. As pirâmides do Egito exigiram os mais pesados e dolorosos trabalhos de que se tem notícia. Algumas belezas nascem da servidão, da exploração do homem pelo homem, da feiúra, paradoxo, que, como tantos outros, desafiam a razão humana. Desculpe, filho, se estou sendo pessimista. Sua alma jovem certamente se deprimirá com os lamentos de uma alma velha, desesperançosa e cansada. Quando envelheceres, me entenderás. Te alimentarás das misérias ocorridas, te arrependerás de suas escolhas ruins, mas compreenderás, finalmente, que o destino já estava traçado, e que ele teve uma lógica. A eminência do fim deixa os velhos ansiosos, angustiados, amedrontados. Preciso acreditar que a morte não é um bicho-de-sete-cabeças. Por ser uma coisa natural, não deve ser um ultraje. Preciso confiar plenamente na harmonia e na perfeição da natureza, que não se aplica muito bem aos humanos, fonte do meu desespero. Mas quero saber de você e de sua vivacidade juvenil. Que bom que já fizeste amizade. Conheci Anita ainda bebê, quando sua mãe partiu para aí. Filho, divirta-se, dance como se estivesse em transe, leia o Kama Sutra e a Arte de Amar de Ovídio. Torne-se um ás no sexo e no amor, e terás o mundo aos seus pés. Não tenha pré-conceitos morais, que só desentendimento e incompreensão trazem. Embriague-se, saiba sorver a poesia bela e intrigante que Baco cochicha nos ouvidos dos bêbados. Só não te deixes ser escravizado por ela. Os desatinos, os exageros da mocidade trazem alguma dor à curto prazo, mas depois, tornam-se lembranças saudosas, divertidas, que nos permitem dizer: sim, eu vivi! Caso leve uma pesada rasteira da vida, não se feche
Da sua velha mãe que te ama incondicionalmente,
Cheguei à capital sem maiores percalços. A viagem foi tranqüila. Vim conversando com um rústico senhor, contrariado pela necessidade constante de ir à cidade grande. Disse-me que não suportava o movimento, o formigueiro humano nas ruas, o barulho e a rudeza dos seus moradores. Como poderá haver pessoas tão distintas? Os defeitos por ele apontados animavam-me cada vez mais, e fiquei muito ansioso para conferir toda aquela bagunça, todo o movimento que está na base de qualquer vida emocionante e alegre. Seu provincianismo, seus pré-conceitos, seu sotaque carregado e sua mania de pigarrear, incomodaram-me, e fizeram-me dar graças a Deus por estar partindo do interior. Os subúrbios da cidade não são bonitos, mas à medida que adentramos a zona central, que maravilha! Praças ornadas com fontes e esculturas, jardins mais lindos do que qualquer floresta, palácios imponentes e arquitetonicamente belos, largas alamedas arborizadas, cheias de transeuntes bem-vestidos, jovens bonitos, festeiros e refinados. Mesmo vestido com meus pobres andrajos, não me senti menosprezado, não me importei com os olhares piedosos. A diferença era apenas esta: trajes. Creio que se tivesse sentado na calçada e colocado um boné à minha frente, teria angariado uns bons trocados. Tenho fé em Deus que ainda andarei bem vestido, comerei naqueles restaurantes e, claro, estarei acompanhado por algum belo rapaz. O mais difícil já tenho: sou um jovem bonito, inteligente e consciente do que é belo e sublime. Só me falta traquejo para as questões práticas e corriqueiras. Sinceramente, ganhar dinheiro, para mim, é um mistério. As forças que estão por trás da separação dos homens entre vencedores e fracassados não me são muito evidentes. Vejo pessoas talentosíssimas que morrem na sarjeta, enquanto fraudes grosseiras e medíocres entram para o panteão nacional. Há, por trás, mil variáveis, impossíveis de serem controladas. O jeito é se resignar aos caprichos insondáveis dos deuses, comumente chamados de sorte. Sou um diamante ainda não descoberto, e a idéia de que morrerei sem ser achado me aflige. Meus sonhos são uma miríade de elocubrações para que consiga atingir esse objetivo. Já sonhei que estava cantando, em voz de soprano, melodias geniais, que desvendavam poeticamente os mistérios do amor, que tanto gozo e sofrer infligem aos amantes, que se viciam nessa dicotomia. O bairro onde vivo é pobre, porém consigo encontrar nele o charme que a decadência e algumas feiúras têm, por mais louco que isso possa parecer. Meu quarto é pequeno, dá para um muro caindo aos pedaços, mas coberto por uma trepadeira. Sim, aqui a beleza e a feiúra mesclam-se, formando interessantes combinações. Anita, filha de nossa conterrânea, é uma jovem muito desinibida, mais espontânea com os homens, do que com as mulheres. Sente-se mais a vontade entre os rapazes, que são, na sua opinião, moleques, ingênuos e divertidos, além de atraentes. Diz não saber por que existem mulheres, observação espirituosa com a qual concordei em parte. Fêmeas que exalam ferormônio são absolutamente dispensáveis a nós, amantes dos homens. Porém, mães e avós, personificação perfeita da santidade da mulher, são sagradas. Combinamos de sair no próximo fim de semana. Prometeu-me apresentar seus amigos. Ainda não lhe confidenciei meu desejo trocado, mas acho que ela já percebeu.
Do seu filho que te amará sempre,
Miguel.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Respostado filho à fala da mãe contida no post anterior
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
A núvem
Brecht
Celebridades made in Brazil
Rezem
sábado, 22 de novembro de 2008
Rezem - continuação
Goiás
Melancólico pôr-do-sol do sertãosexta-feira, 21 de novembro de 2008
Ideais
a viver. Os meios mais sutis de dominação são profundos, eficientes, alienantes. Discorrendo sobre a liberdade, a igualdade, a fraternidade, os direitos humanos, hipnotizam-nos, escravizam-nos, engana-os. Estranho paradoxo, já mencionado por Wilde: por trás das melhores intensões, ocorrem os crimes mais brutais. Dominação covarde e hipócrita; melhor seria escancarar situação de desigualdade, de discrepância, de conflito entre os homens. Os bonitos ideais são utópicos, melhor não subestimar o poder da miséria, que pode ser infinita. O poço não tem fundo, talvez esteja aí o cerne do medo e do desespero humano. O desamparo é real, e Deus realmente nos abandona. Os fracos, submetidos, a princípio, pelos ideais, desiludem-se, dizendo: "Você diz uma coisa e faz outra", ou "Sua proteção está me matando", ou "Acho que você mentiu". Aprendem com os fortes a tiranizar por meio dos ideais, havendo o retorno do feitiço contra o feiticeiro. Ficam, assim, todos tiranizados pelos ideais, que revoltam a humanidade, devido ao contraste destes com a miséria circundante. Coitados de nós, seres atormentados, que conseguem vislumbrar o belo e o sublime. Se não tivéssemos a idéia de céu, paraíso , será que sofreríamos menos?
quinta-feira, 20 de novembro de 2008
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Alter - ego
Bovary
Norma Desmond
Tennessee in robe
Truman Capote e Marilyn Monroe
Marilyn Monroe
Blanche Dubois
Blanche Dubois
Tennessee Williams
Blanche e Kowalsky, belo contraste entre a delicadeza e a rudeza

Blanche Dubois
Carismáticos, sensuais, frágeis, sensíveis, refinados, cultos, inteligentes, sonhadores, infelizes, inúteis, viciados, desamparados, ansiosos, vítimas do mundo agressivo e grosseiro. Geralmente estão na corda bamba, vivem no improviso, começam do zero, lutam por cada dia. Quando chega a noite, estão exaustos e intranquilos. Sonham com a salvação. Sonham em serem achados. Sonham com um lugar à sombra. " I can´t live this way. God, I must take a lover.Valium, please, I need to sleep. I love to sleep" . Amo vocês!
terça-feira, 18 de novembro de 2008
O Esposo infernal - Rimbaud (a perfeição poética)
Vamos ouvir a confissão de um companheiro de inferno¹: "Ó divino Esposo, meu Senhor, não recusai a confissão da mais triste de vossas servidoras. Estou perdida. Estou bêbada. Sou impura. Que vida!"Perdão, divino Senhor, perdão! Ah! perdão! Quantas lágrimas! E quantas lágrimas ainda mais tarde, espero!"Mais tarde, conhecerei o divino Esposo! Nasci submissa a Ele. - O outro pode me bater agora!"Agora, estou no fundo do mundo! O minhas amigas!... não, não, minhas amigas... Jamais delírios nem torturas iguais... Que besteira!"Ah! eu sofro, eu grito. Eu sofro mesmo. Tudo, no entanto, me é permitido, carregada do desprezo dos mais desprezíveis corações."Enfim, vamos fazer esta confissão, nem que deva repeti-la vinte vezes mais - tão triste, tão insignificante!"Eu sou escrava do Esposo infernal, aquele que perdeu as virgens loucas. É mesmo este demônio. Não é um espectro, não é um fantasma. Mas eu que perdia sabedoria, que estou danada e morta ao mundo - não me matarão! - Como descrevê-lo! Não sei mais nem falar. Estou de luto, choro, tenho medo. Um pouco de frescor, Senhor, se quereis, se bem quereis!"Sou viúva... - Era viúva... - sim, eu fui muito séria antigamente, e não nasci para me tomar esqueleto!... - Ele era quase uma criança... Suas delicadezas misteriosas me seduziram. Esqueci todo o meu dever humano para segui-lo. Que vida! A verdadeira vida está ausente. Não estamos ao mundo. Eu vou onde ele vai, é preciso. E muitas vezes ele se irrita contra mim, mim, a pobre alma. O Demônio! - E um Demônio, você sabe, não é um homem."Ele diz: Não amo as mulheres. O amor deve ser reinventado, é sabido. Elas não podem mais querer nada além de uma situação segura. A posição conseguida, coração e beleza são postos de lado: resta apenas frio desprezo, o alimento do casamento hoje. Ou então eu vejo mulheres com os sinais da felicidade, das quais eu poderia ter feito boas companheiras, engolidas primeiro por brutos sensíveis como fogueiras...""Eu o escuto fazendo da infâmia uma glória, da crueldade um charme. "Sou de raça longínqua: meus pais eram escandinavos: eles furavam as costelas, bebiam seu sangue. - Farei feridas em todo meu corpo, tatuagens, quero me tornar medonho como um mongol: você verá, eu vou berrar pelas ruas. Quero ficar bem louco de raiva. Nunca me mostre jóias; eu rastejaria e me torceria no tapete. A minha riqueza, eu a queria manchada de sangue em todo lugar. Nunca trabalharei..." Em muitas noites, o seu demônio me pegando, nos rolávamos, eu lutava com ele! - De noite, muitas vezes, bêbado, ele se coloca nas ruas ou nas casas, para assustar-me mortalmente. "Vão me cortar realmente o pescoço; será nojento." Oh! estes dias em que ele quer andar com o ar do crime!"As vezes ele fala numa espécie de dialeto suavizado, da morte que faz arrepender, dos infelizes que existem certamente, dos trabalhos duros, das despedidas que rasgam os corações. Nas espeluncas onde nos embriagávamos, ele chorava considerando os que nos cercavam, rebanho da miséria. Ele punha de pé os bêbados nas ruas negras. Ele tinha a piedade de uma mãe maldosa com as criancinhas. - Ele ia embora com gentilezas de menina no catecismo. - Fingia estar informado sobre tudo, comércio, arte, medicina. - Eu o seguia, é preciso!"Eu via todo o cenário com que, em espírito, ele se rodeava; vestidos, lençóis, móveis: eu lhe atribuía armas, uma outra cara. Eu via tudo o que o tocava, como ele teria querido criar para si. Quando ele me parecia ter o espírito inerte, eu o seguia em ações estranhas e complicadas, longe, boas ou más: eu tinha a certeza de nunca entrar no seu mundo. Ao lado de seu querido corpo adormecido, quantas horas, noites eu velei, tentando entender por que ele queria tanto fugir da realidade. Nunca homem nenhum teve igual desejo. Eu reconhecia - sem temer por ele - que ele poderia ser um sério perigo na sociedade. - Ele tem talvez segredos para mudar a vida? Não, só faz procurá-los, me respondi. Enfim, a sua caridade é enfeitiçada, e eu sou a prisioneira. Nenhuma outra alma teria força suficiente - força de desespero! - para suportá-la - para ser protegida e amada por ele. Aliás, eu não o imaginava com outra alma: a gente vê o seu Anjo, nunca o Anjo de um outro - acredito. Eu estava na sua alma como num palácio que foi esvaziado para não ver uma pessoa tão pouco nobre quanto nós: eis tudo. Infelizmente! eu dependia mesmo dele. Mas o que ele queria com minha existência pálida e covarde? Ele não me tornava melhor, mesmo se não me fazia morrer! Tristemente decepcionada, eu lhe disse algumas vezes: "Eu te entendo". Ele levantava os ombros."Assim, a minha tristeza voltando sempre, e me achando mais perdida aos meus olhos - como a todos os olhos que quisessem me encarar, se eu não tivesse sido condenada para sempre ao esquecimento de todos! - eu tinha cada vez mais fome de sua bondade. Com seus beijos e abraços amigos, era mesmo um céu, um escuro céu, onde eu entrava, e onde gostaria de ser deixada, pobre, surda, muda, cega. Já eu me acostumava. Eu nos via como duas boas crianças, livres de passear no Paraíso de tristeza. Nós nos dávamos bem. Emocionados, trabalhávamos juntos. Mas, após uma penetrante carícia, ele dizia: "Como vai te parecer estranho, quando eu não estiver mais aqui, aquilo pelo qual você passou. Quando você não tiver mais meus braços sob o teu pescoço, nem meu coração para descansar, nem esta boca nos teus olhos. Porque será preciso que eu vá embora, muito longe, um dia. E devo ajudar outros, é meu dever. Embora isto não seja muito agradável... querida alma..." Imediatamente eu me pressentia, ele tendo partido, tomada de vertigem, jogada na sombra a mais horrível: a morte. Eu lhe fazia prometer que ele não me largaria. Ele a fez vinte vezes esta promessa de amante. Era tão frívolo como eu lhe dizendo: "Eu te entendo...""Ah! eu nunca tive ciúmes dele. Ele não me deixará, acredito. Para tornar-se o quê? Ele não tem uma relação, não trabalhará nunca. Ele quer viver sonâmbulo. Sozinhas, sua bondade e sua caridade lhe dariam algum direito no mundo real? Por instantes, esqueço a piedade onde caí: ele me deixará forte, viajaremos, caçaremos nos desertos, dormiremos nas mas de cidades desconhecidas, sem cuidados, sem penas. Ou eu acordarei, e as leis e os costumes terão mudado - graças ao seu poder mágico, - o mundo, continuando o mesmo, me deixará a meus desejos, alegrias, preguiças. Oh! a vida de aventuras que existe nos livros das crianças, para me recompensar, eu sofri tanto, você a dará para mim? Ele não pode. Ignoro o seu ideal. Ele me disse ter saudades, esperanças: isto não deve me dizer respeito. Será que ele fala com Deus? Talvez eu devesse pedir a Deus. Estou no mais profundo abismo e não sei mais rezar."Se ele me explicasse as suas tristezas, será que as entenderia melhor que as suas zombarias? Ele me ataca, ele passa horas a me deixar com vergonha de tudo o que me tocou no mundo, e ele fica indignado se eu choro."- Estás vendo este jovem elegante, entrando na bela e calma casa: ele se chama Duval, Dufour, Armando, Maurício, que importa? Uma mulher se dedicou a amar este idiota maldoso: ela morreu, é com certeza uma santa no céu, agora. Você me fará morrer como ele fez morrer esta mulher. E o nosso destino, a nós, corações caridosos..." Infelizmente! ele tinha dias em que todos os homens agindo lhe pareciam os joguetes de delírios grotescos; ele ria horrivelmente, muito tempo. - Depois, ele retomava suas maneiras de jovem mãe, de irmã amada. Se ele fosse menos selvagem, estaríamos salvos! Mas a sua doçura também é mortal. Eu lhe sou submissa. Ah! Sou louca!"Um dia talvez ele desaparecerá maravilhosamente; mas é preciso que eu saiba, se ele deve subir para um céu, que eu veja um pouco a assunção² do meu amiguinho!" Casal esquisito!
Lust

O dilema das cortesãs



