domingo, 30 de novembro de 2008

Miguel acha o amor


Mãe,

Chegou-me um moço com olhos bondosos. Em pouco tempo reconheceu minha face infeliz, dissecou minhas fraquezas. Chamei-o gênio.“Você pensa que seus males são irreversíveis, incuráveis. Não é verdade, há cura, milagres acontecem a todo instante, não são percebidos porque são muito sutis, e seguem uma lógica insondável e contrária à filosofia humana, que tem problemas em reconhecer a essência das coisas. Os milagres podem vir até mesmo vestidos de desgraça. Por exemplo, a morte prematura de um filho, por mais dolorosa que seja, não se compara a dor de vê-lo, quando adulto, enlouquecer de tanta infelicidade. A loucura pode nos poupar da dor. Alguns, ao serem internados em sanatórios, encontram o amor e enxergam a face de Deus. Os milagres são de difícil percepção, se analisamos as parte, e não o todo. Ao final da vida, no leito de morte, os homens percebem que suas vidas foram cheias de milagres, e que Deus é um gênio aparentemente pouco óbvio, mas na essência óbvio. Seu caso não é grave. Venha comigo; para mim, podes transbordar seus pensamentos incestuosos, inconfessáveis e melancólicos, que certamente todos têm. Nunca hei de condenar-te, ou horrorizar-me. Ajudarei-te”. Depois de mais um tempo fiquei admirado por não ser do seu feitio rejeitar os infelizes, condenar criminosos, ao contrário, acho que reza por eles, ou tentar eliminar o mal do mundo. Pensei estar falando com algum anjo habitante do palácio de Deus. Finalmente, depois de anos pensando ter sido abandonado pelo criador, encontrei eu, Madalena, Cristo. Quão não é belo o encontro de um infeliz pecador com um anjo luminoso? Declarei amá-lo e junto dele seguir. “Não, vamos com calma. O amor de qualquer maneira mata. Se somos amados por carrascos, morremos pela escravidão e seu fardo. Se somos amados por anjos, morremos pelo excesso de liberdade e felicidade. Difícil a questão do amor. Não lhe prometo o amor, mas se quiseres vir junto a mim, sinta-se encorajado.” “Mas de todo jeito morreremos, e quero ser docemente assassinado pelo seu amor. Por favor, te suplico”, disse eu. “Venha, o amor é inevitável”. Fiquei hipnotizado, não questionei nada e me dispus a segui-lo para qualquer parte. Que assim seja, amém.

Do seu Miguel.

sábado, 29 de novembro de 2008

Sábado em Copacabana Dorival Caymmi Carlos Guinle

Esta é Copacabana, ampla lagunaCurva e horizonte, arco de amor vibrandoSuas flechas de luz contra o infinito.Aqui meus olhos desnudaram estrelasAqui meus braços discursaram à luaDesabrochavam feras dos meus passosNas florestas de dor que percorriam.Copacabana, praia de memórias!Quantos êxtases, quantas madrugadasEm teu colo marítimo!
– Esta é a areia
Que eu tanto enlameei com minhas lágrimas– Aquele é o bar maldito. Podes verNaquele escuro ali? É um obeliscoDe treva – cone erguido pela noitePara marcar por toda a eternidadeO lugar onde o poeta foi perjuro.Ali tombei, ali beijei-te ansiadoComo se a vida fosse terminarNaquele louco embate. Ali canteiÀ lua branca, cheio de bebidaAli menti, ali me cilicieiPara gozo da aurora pervertida.
Sobre o banco de pedra que ali tensNasceu uma canção. Ali fui mártirFui réprobo, fui bárbaro, fui santoAqui encontrarás minhas pegadasE pedaços de mim por cada canto.Numa gota de sangue numa pedraAli estou eu. Num grito de socorroEntreouvido na noite, ali estou eu.No eco longínquo e áspero do morroAli estou eu. Vês tu essa estruturaDe apartamento como uma colmeiaGigantesca? em muitos penetreiTendo a guiar-me apenas o perfumeDe um sexo de mulher a palpitarComo uma flor carnívora na treva.Copacabana! ah, cidadela forteDesta minha paixão! a velha luaFicava de seu nicho me assistindoBeber, e eu muita vez a vi luzindoNo meu copo de uísque, branca e puraA destilar tristeza e poesia.Copacabana! réstia de edifíciosCujos nomes dão nome ao sentimento!Foi no Leme que vi nascer o ventoCerta manhã, na praia. Uma mulherToda de negro no horizonte extremoEntre muitos fantasmas me esperava:A moça dos antúrios, deslembradaA senhora dos círios, cuja alcovaO piscar do farol iluminavaComo a marcar o pulso da paixãoMorrendo intermitentemente. E aindaExiste em algum lugar um gesto alto,Um brilhar de punhal, um riso acústicoQue não morreu. Ou certa porta abertaPara a infelicidade: inesquecívelFrincha de luz a separar-me apenasDo irremediável. Ou o abismo abertoEmbaixo, elástico, e o meu ser dispersoNo espaço em torno, e o vento me chamandoMe convidando a voar... (Ah, muitas mortesMorri entre essas máquinas erguidasContra o Tempo!) Ou também o desesperoDe andar como um metrônomo para cáE para lá, marcando o passo do impossívelÀ espera do segredo, do milagreDa poesia.
Tu, Copacabana,Mais que nenhuma outra foste a arenaOnde o poeta lutou contra o invisívelE onde encontrou enfim sua poesiaTalvez pequena, mas suficientePara justificar uma existênciaQue sem ela seria incompreensível.
Los Angeles, 1948

Vinícius de Moraes

O barquinho - clipe do meu amor de verão

English version for the precedent topic

Remember the applauses to the sunset in the arpoador rocks? It was there that I saw you for the first time. You were enchanted with my Latin spontaneity, my simple sensuality, and I, with your silly, naive,and respectful way, typical of the Saxons. Following praisewothy to God those torrid days in the sun that burned in embellished with that tan iamb in me, and gold on you. I hope you remember the warm nights, where the sea ran its moist breath, arousing our lust. When we felt we would´t resist, we used to pay the bill at once, and go to our hotel room to make love. I hope you remember that fan to run grasping in vain refreshing our bodies exhausted and swet. Under the blessing of Christ and savior of all deities, we walked by the most diverse places, you always amazed by the noise and cheerful and festive mess of Rio. Yes, at least for us, there was no sin below the equator. You're crazy, Brazilians are crazy, Rio, the city's most insane world, you said. How not to surrender to madness in this paradise? Here, God whim, and cariocas, as the natives of beautiful places, are extremely sensual and interesting. They are, by the way, great lovers, liberal, adventurous. How not to be thar way in the midst of this exuberance? Crazy Brazil, Rio Crazy!

Kisses from your Brazilian lover - Rio, summer 2008

Lembra-se dos aplausos ao sol quando ele se punha no arpoador? Foi lá que te vi pela primeira vez. Quem nunca sonhou em achar o amor no verão de ipanema? Você se encantou com minha espontaneidade latina, minha sensualidade brejeira, e eu, com seu jeito bobo, ingênuo, respeitoso, típico dos saxões. Depois louvávamos a Deus aqueles dias tórridos, em que o sol ardia, nos embelezando com aquele bronzeado jambo em mim, e dourado em você. Espero que você se lembre das noites quentes, em que o mar soprava seu hálito húmido e salgado, despertando nossa luxúria. Quando não resistíamos, pagávamos logo a conta e corríamos para o nosso quarto de hotel nos amar. Espero que se lembre daquele ventilador a rodar sofregamente, em vão refrescando nossos corpos exaustos e suados. Sob a bênção do Cristo redentor e de todos os orixás, passeávamos pelos mais variados lugares, você sempre espantado com o barulho, a bagunça alegre e festiva do Rio. Sim, pelo menos para nós, não existiu pecado abaixo do Equador. Você é louco, os brasileiros são loucos, o Rio, a cidade mais louca do mundo, dizia. Como não se entregar à loucura nesse paraíso? Aqui, Deus caprichou, e o homem se apossou de sua obra. O carioca, como os nativos de lugares bonitos, são extremamente sensuais e interessantes. São, por sinal, ótimos amantes, liberais, ousados. Como não o ser em meio a esta exuberância? Crazy Brazil, Crazy Rio!! ...Saudades

Bairro das delícias

Mãe,

Para os amantes dos prazeres ilusórios, e, portanto ilegais, os caminhos levam ao bairro das delícias, conhecido, pelos que odeiam os sonhos, como bairro proibido. Todos fingem nunca ter-lhe ouvido falar, mas com perspicácia e uma dose de charmosa malícia, logo se descobre onde fica. Tomando um taxi, percebemos estar chegando pela decadência crescente dos prédios, pelo cheiro malsão das taras, pelo bafo amargo e úmido dos prostíbulos, pelas gargalhadas vulgares de putas velhas, abandonadas por Afrodite, e que recorrem a inexplicáveis expedientes para continuar seu ofício. Meninos miseráveis, que, recém-saídos do inferno, vagam com olhos espantados e intranqüilos a procura de anjos caídos. Escravos horrendos, com feições apodrecidas pela pesada carga do mundo, sussurram nos ouvidos dos misteriosos e belos transeuntes o preço das ilusões. O prazer, na civilização só pode estar na ilusão; a realidade é, para os civilizados, tédio e tortura. Agora entendo, mãe, a necessidade dos deliciosos escapes por ti mencionados, e tenho recorrido a eles. Certa vez, estava naquele speakeasy costumeiro, iludido por Baco. Tudo parecia ter solução, e se não tivesse, que se danasse, o medo não me amedrontava mais, a solidão, não passava de uma insossa amiga, que ri de tudo o que falamos, mas não nos faz rir. Percebi, lá pelas tantas, um rebuliço, meninas gritando, eufóricas, suplicando que fossem escolhidas para passar a noite com um misterioso freqüentador. Quem é ele? - perguntei. “É um demônio, ou um deus, não sei, que está chegando. É a morte travestida de vida, um nobre rapaz que mata suas amantes de tanto êxtase. Seu amor não é humano, seu sexo provoca um prazer que não cabe à vida e aos mortais. Dizem que com ele os orgasmos são fatais. As jovens moças depois de sentir o prazer reinante no Olimpo, se recusam a voltar à vida, e suplicam pela morte. Ele as mata de forma indolor, sendo muito admirado por isso. Todas nós sonhamos com essa morte, e concorremos a tapas para tê-la.” Mesmo sendo o prazer o pai da mais mortal e duradoura escravidão, aquela que te destrói com a delicadeza das poesias e canções, não me importo em ser seu leal cativo. Com o raiar do sol, a luz provoca choro e gritaria. “É o fim”, “O delírio acabou”, “A luz deixa-nos horrendos, que horror, a realidade é pérfida” são frases ditas com desespero. Como vampiros, todos voltam às suas catacumbas, para que suas peles alvas não sejam queimadas. É estranho, mas pressinto que neste inferno hei de encontrar o amor.

Do seu Miguel.

Fé na humanidade

Mãe,

Meu estado de espírito melhorou muito, desde que cheguei à capital. No sertão, poderia aparecer-me a Virgem Maria, e mesmo assim continuaria desesperado e sem esperança. Poderia acontecer os mais belos milagres, que não sairia da pasmaceira, da solidão. Bem sabes que a vida no sertão sem vícios é insuportável. O entorpecimento é condição imprescindível para suportar o silêncio, o pôr-do-sol melancólico, o luar solitário. Meu único consolo era o choro do sertanejo, tocando seu violão surrado e cantando a tristeza, o abandono, o isolamento, a natureza, com sua beleza genial, de difícil compreensão e tradução, indiferente ao homem, sua única e cativa platéia, criatura sui-generis, estrangeira às demais, portadora das maiores glórias e misérias. Tudo isso nos faz sentir mais pequenos do que vermes, completamente abandonados e sós, justamente nós, criaturas tão orgulhosas, consideradas espelho do criador. Aqui na cidade, não temos tempo para pensar, por isso não nos angustiamos tanto. Sinto muita alegria em acordar e ouvir o burburinho agitado, o barulho de carros, pessoas, deslocando-se em direção ao ganha-pão. Ao contrário do sertão, meu sono aqui é pesado, acordo com o dia claro, e a vida em febre. Nos finais de semana, fico encantado com o movimento, os bares e restaurantes cheios. Quando é dia de futebol, a cidade vibra a cada gol, numa alegria coletiva contagiante e gostosa. Os espetáculos humanos são mais empáticos, inteligíveis e, não raro, mais belos do que os divinos. Passo horas no Museu de Belas Artes, admirando a genialidade com que os artistas lêem, interpretam e reproduzem a natureza, sob a ótica humana. Os luares dos quadros são mais bonitos. A expressão dos retratados, mais intrigantes. As cores, mais interessantes. Às vezes, acho que superamos nosso criador, em matéria de perfeição. Fora os espetáculos de teatro, muito mais harmônicos do que a vida, grosseiro improviso de péssimos atores. Ao assistir o desfecho trágico do herói, que não tendo juízo perfeito, não sabendo, pois, o que fazer com sua liberdade e suas múltiplas possibilidades, tomou, por azar, o caminho mais desastroso. Seus olhos esbugalhados e vermelhos, sua face em súplica, seu corpo contorcido pela dor, sua voz desesperada ante a inevitabilidade e irreversibilidade da tragédia humana, comoveram-me intensamente, saltando-me aos olhos pranto solidário e catártico. A civilização aumentou minha curiosidade pelo homem, cujo universo é interessantíssimo. Fico intrigado com as histórias que ouço, sinto-me enriquecido pela diversidade aqui existente. Agora entendo por que nossos olhos são voltados para o mundo, e não para nós. Aprendi a gostar menos de espelhos.

Do seu Miguel.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Miguel decide trabalhar - otimismo

Mãe,

Não me é mais possível viver a vida no ócio contemplativo, luxo exclusivo da nobreza. Terei, enfim, que trabalhar, fazer parte da complexa engrenagem que move a humanidade. É claro que não sou romântico quanto ao trabalho, creio que a maioria não se beneficia dele. Trabalhar é um sacrifício feito por muitos, cujas benesses são desfrutadas por privilegiados pela sorte, pelo talento, e demais características que distinguem os homens. Quanto ao dinheiro, tive alguns insights a respeito da arte de ganhá-lo. Tenho que achar um jeito de facilitar a vida humana, torná-la menos sofrível e trabalhosa. Como esse raciocínio é óbvio, e só agora consigo vislumbrá-lo. Assim, no emprego que conseguir, hei de usar minha inteligência para descobrir métodos que economizem esforços, e que gerem qualidade. Esses dois fatores aliados permitirão a oferta de produtos e serviços altamente satisfatórios e baratos, desafio do marketing. Sim, estou conseguindo perceber o quanto o trabalho, que por um lado mata, pode ser útil. Quando considerado como rito de amor ao semelhante, dignifica-nos, é-nos doce veneno. Mas que estou eu a dizer? Serei um mero trabalhador braçal. Mesmo assim, não deixarei de pensar e procurarei desenvolver relações amistosas com os superiores, mostrando-lhes minha satisfação de ser, por eles, liderado. A capacidade de liderança é o sonho de todo chefe. Inspirar os subordinados, fazê-los perceber, valorizar e identificarem-se com o sentido do desafio proposto, inspirar-lhes sonhos, até mesmo delírios, não é para qualquer um. Não há melhor política do que fazê-los crer que o sejam. Caso o seja, de verdade, tanto melhor. Tentarei aos poucos infiltrar minhas idéias, que Deus há permitir que sejam lúcidas, para progredir. Sempre visando à facilitação da vida. Deseje-me sorte, boa mãe, depois de muito tempo, creio que recuperei a sensatez e o otimismo.

Do seu Miguel.

Hino aos benzodiazepínicos

Obrigado, maldito amigo, por ter permitido-me descansar, dormir, sonhar. Poupaste-me da solidão das madrugadas, da corrosão da ansiedade, de inúmeros desatinos. Todos dizem que matas, que provocas dependência. Mas, o que nessa vida não mata? Até o ar que respiramos desgasta nossa pleura. Tudo no mundo é parte remédio, parte veneno. Não queroviver muito, é sabido. Ao contrário dos homens ditos sensatos, a vida, para mim não é um imperativo. Não cometerei brutalidades e monstruosidades para viver. Não me acovardarei ante a morte, e não tenho medo do dia em que chegar à conclusão de que não vale a pena continuar. Amigo que acalma meus pensamentos, me traz sensatez, obrigado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Amorosa mãe,

A beleza dos homens vem me tirando a paz. Descobri que a luxúria é, em mim, o pecado mais pronunciado. Não consigo passar pelos belos sem encará-los de maneira agressiva, indecente. Não consigo disfarçar meu grande apetite sexual. A maioria fica constrangida, sai de perto, ou fingem que não viram. Que horror a indiferença e o asco com que me tratam! São todos narcísicos, desprezam o amor, os infelizes, as aberrações. Guardam sua beleza a sete chaves, escolhem um pequeno e seleto grupo para compor sua platéia. Dizem que seus espetáculos são grotescos, insanos e decepcionantes, saindo a maioria acreditando ser a beleza uma maldição. É o que ouço dos poetas de bar, prostitutas, aleijados, miseráveis de toda sorte, que me adoram. Comunico-lhe que perdi minha virgindade, da pior maneira possível. Vi o quanto o mundo pode ser sinistro. Recorri aos speakeasys da vida, onde o erro floresce, as cicatrizes são um charme, aberrações recebem elogios, velhos enfiam suas asquerosas línguas nos ouvidos de jovens desesperadas e miseráveis. Fui com um homem, a princípio charmoso, viajado, experiente, que disse ser o demônio mais fascinante e mais próximo dos humanos do que Deus. “Veja na literatura, por exemplo, quantas menções ao demônio. Como conseguimos intuí-lo de maneira mais detalhista. Não é tão misterioso quanto Deus. Como o homem tem fascínio pelo tormento, pela tragédia, pelo crime, pelas injustiças. São belas, esteticamente falando. Nada nos comove mais. Talvez essa seja a beleza do humano, ser desprotegido, nu e injustiçado pela natureza. Por isso Prometeu cedeu-nos o fogo. Alguns ingênuos corações afirmam ser o nosso intelecto nossa danação maior. Mas será que conseguiríamos nós viver sem refletir, transgredir, progredir. Conseguiríamos nós resignar ante aos caprichos de um criador zombeteiro e déspota. O intelecto não se submete à autoridade de leis grosseiras. Seríamos desgraçados de todo jeito. Melhor sermos nós a arquitetar nossa miséria. Esse é o nosso charme. A danação, o nosso trunfo.” E o amor, a gratidão, o perdão, onde ficam, perguntei. "Não se iluda quanto a isso, o amor, desconheço". Perdi minha virgindade com o próprio Lúcifer. Sim, o demônio é convincente, e quem quiser revolução tem nele ótimo aliado. O sexo foi seco. No ápice do gozo, olhou-me com desprezo. Depois vestiu-se e se pôs a fitar o mundo com os olhos rasos de revolta Um beijo afetuoso,

Miguel

Querido filho,

Já esperava seu deslumbramento pela capital. É, talvez, a cidade mais bonita do mundo. No entanto, a beleza não nasce do nada, não é construída sem esforço e engenho. Para que ela exista, algumas tragédias e sacrifícios devem ser feitos. Os suntuosos palácios custaram a vida de dezenas de escravos. As pirâmides do Egito exigiram os mais pesados e dolorosos trabalhos de que se tem notícia. Algumas belezas nascem da servidão, da exploração do homem pelo homem, da feiúra, paradoxo, que, como tantos outros, desafiam a razão humana. Desculpe, filho, se estou sendo pessimista. Sua alma jovem certamente se deprimirá com os lamentos de uma alma velha, desesperançosa e cansada. Quando envelheceres, me entenderás. Te alimentarás das misérias ocorridas, te arrependerás de suas escolhas ruins, mas compreenderás, finalmente, que o destino já estava traçado, e que ele teve uma lógica. A eminência do fim deixa os velhos ansiosos, angustiados, amedrontados. Preciso acreditar que a morte não é um bicho-de-sete-cabeças. Por ser uma coisa natural, não deve ser um ultraje. Preciso confiar plenamente na harmonia e na perfeição da natureza, que não se aplica muito bem aos humanos, fonte do meu desespero. Mas quero saber de você e de sua vivacidade juvenil. Que bom que já fizeste amizade. Conheci Anita ainda bebê, quando sua mãe partiu para aí. Filho, divirta-se, dance como se estivesse em transe, leia o Kama Sutra e a Arte de Amar de Ovídio. Torne-se um ás no sexo e no amor, e terás o mundo aos seus pés. Não tenha pré-conceitos morais, que só desentendimento e incompreensão trazem. Embriague-se, saiba sorver a poesia bela e intrigante que Baco cochicha nos ouvidos dos bêbados. Só não te deixes ser escravizado por ela. Os desatinos, os exageros da mocidade trazem alguma dor à curto prazo, mas depois, tornam-se lembranças saudosas, divertidas, que nos permitem dizer: sim, eu vivi! Caso leve uma pesada rasteira da vida, não se feche em copas. Continue exposto ao jogo e aos tapas. Nunca fuja da vida, senão corres o risco de virar um zumbi, de morreres em vida.

Da sua velha mãe que te ama incondicionalmente,

Carmen.
Querida mãe,

Cheguei à capital sem maiores percalços. A viagem foi tranqüila. Vim conversando com um rústico senhor, contrariado pela necessidade constante de ir à cidade grande. Disse-me que não suportava o movimento, o formigueiro humano nas ruas, o barulho e a rudeza dos seus moradores. Como poderá haver pessoas tão distintas? Os defeitos por ele apontados animavam-me cada vez mais, e fiquei muito ansioso para conferir toda aquela bagunça, todo o movimento que está na base de qualquer vida emocionante e alegre. Seu provincianismo, seus pré-conceitos, seu sotaque carregado e sua mania de pigarrear, incomodaram-me, e fizeram-me dar graças a Deus por estar partindo do interior. Os subúrbios da cidade não são bonitos, mas à medida que adentramos a zona central, que maravilha! Praças ornadas com fontes e esculturas, jardins mais lindos do que qualquer floresta, palácios imponentes e arquitetonicamente belos, largas alamedas arborizadas, cheias de transeuntes bem-vestidos, jovens bonitos, festeiros e refinados. Mesmo vestido com meus pobres andrajos, não me senti menosprezado, não me importei com os olhares piedosos. A diferença era apenas esta: trajes. Creio que se tivesse sentado na calçada e colocado um boné à minha frente, teria angariado uns bons trocados. Tenho fé em Deus que ainda andarei bem vestido, comerei naqueles restaurantes e, claro, estarei acompanhado por algum belo rapaz. O mais difícil já tenho: sou um jovem bonito, inteligente e consciente do que é belo e sublime. Só me falta traquejo para as questões práticas e corriqueiras. Sinceramente, ganhar dinheiro, para mim, é um mistério. As forças que estão por trás da separação dos homens entre vencedores e fracassados não me são muito evidentes. Vejo pessoas talentosíssimas que morrem na sarjeta, enquanto fraudes grosseiras e medíocres entram para o panteão nacional. Há, por trás, mil variáveis, impossíveis de serem controladas. O jeito é se resignar aos caprichos insondáveis dos deuses, comumente chamados de sorte. Sou um diamante ainda não descoberto, e a idéia de que morrerei sem ser achado me aflige. Meus sonhos são uma miríade de elocubrações para que consiga atingir esse objetivo. Já sonhei que estava cantando, em voz de soprano, melodias geniais, que desvendavam poeticamente os mistérios do amor, que tanto gozo e sofrer infligem aos amantes, que se viciam nessa dicotomia. O bairro onde vivo é pobre, porém consigo encontrar nele o charme que a decadência e algumas feiúras têm, por mais louco que isso possa parecer. Meu quarto é pequeno, dá para um muro caindo aos pedaços, mas coberto por uma trepadeira. Sim, aqui a beleza e a feiúra mesclam-se, formando interessantes combinações. Anita, filha de nossa conterrânea, é uma jovem muito desinibida, mais espontânea com os homens, do que com as mulheres. Sente-se mais a vontade entre os rapazes, que são, na sua opinião, moleques, ingênuos e divertidos, além de atraentes. Diz não saber por que existem mulheres, observação espirituosa com a qual concordei em parte. Fêmeas que exalam ferormônio são absolutamente dispensáveis a nós, amantes dos homens. Porém, mães e avós, personificação perfeita da santidade da mulher, são sagradas. Combinamos de sair no próximo fim de semana. Prometeu-me apresentar seus amigos. Ainda não lhe confidenciei meu desejo trocado, mas acho que ela já percebeu.

Do seu filho que te amará sempre,

Miguel.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Respostado filho à fala da mãe contida no post anterior

Mãe, ainda sou muito menino, não tenho discernimento para saber o que é bom ou ruim, que caminho tomar. Creio que nem os velhos sábios o têm. Sei que é chegada a hora da partida e seguirei o seu conselho. Sei que também não tens certeza do que me aguarda, ou do que é melhor para mim, mas o que é a vida senão um jogo arriscado, uma aposta, uma existência de tentativa e erro. Aqui, nessa aldeia, vivo muito só, as horas são compridas, o silêncio é profundo e nos dias de calor, que são quase todos, os passarinhos não cantam. O sertão é um bom lugar para moribundos, que querem morrer em paz e sem alarde. Cansei dos espetáculos da natureza. Quero ter contato com a criação humana, menos lacônica, menos genial e mais variada. Sim, o amor, quero encontrá-lo, mas sinto que será uma difícil e sofrível tarefa. Tenho comigo a intuição de que o amor virá daquele que terá, no íntimo, afeição por mim, mas que me tratará publicamente com desprezo, na tentativa de mascarar seu desejo recalcado. No entanto, conto com a sorte de que não tenha muito talento para a dissimulação, e com a incapacidade humana de ser coerente o tempo todo. Sendo assim, poderei penetrar o seu íntimo, pelos seus atos falhos. Este será meu trunfo, meu instrumento. Agradeço por tudo, ressalto que, como amante, podes não ter sido perfeita, mas como mãe, foi impecável. Amou-me incondicionalmente e nunca, mesmo nos momentos de extrema tristeza e idiotia, quando emudeci e pensei que havia enlouquecido, não me dirigiu palavra alguma que me machucasse, que denotasse que sofria de um mal irremediável. Este é seu maior legado, quiçá o maior que uma mãe pode dar. Parto com pesar e alegria. Guardarei saudades, mesmo não tendo sido feliz. A dor não é de todo ruim, de tudo há o que se pode aproveitar. Adeus, mãe querida, tentarei dosar prudência e ousadia, receio-me apenas da minha ingenuidade, que não reconhece facilmente a maldade dirigida a efeminados que amam transgredindo. Manterei contato, contando-lhe tudo, confidenciando os mais inconfessáveis segredos, o que não será nenhuma novidade. Procurarei a pensão de nossa conterrânea, naquele bairro onde a boemia ferve, poetas declamam poesias às putas, profissionais admiráveis que vendem boas e necessárias ilusões, mas que, por sua vez, estão sempre entre a cruz e a espada.
Filho, meu presságio e o medo que me acompanhou por toda a vida se confirmaram. Viverei uma velhice solitária, como os elefantes, e morrerei no leito de morte de meus ancestrais, nessa casa centenária. Haverei de viver o pouco que me resta fazendo doces, fumando meu cigarro de palha e apreciando o único espetáculo desse fim de mundo: o luar. Filho, é chegada a hora de você partir. Desde menino, tenho reparado que és estrangeiro em sua terra. És doce, suave, refinado. Dá-me muita pena ver um príncipe vivendo uma vida de plebeu. Fico encantada em ver-te sonhando, fantasiando serem seus trapos vestimentas refinadas, e nossa pobre comida, manjar de reis. Além disso, seu amor tem finalidade outra da pregada pela igreja e seus padres. Nessas paragens, acho difícil que encontres alguém, e a vida sem amor é um fardo. Desde que seu pai morreu, tenho suplicado que a morte me leve também. Quando sonho com ele, estendo a mão procurando-o na cama. Não encontro nada além de um frio travesseiro, ficando minha alma gelada de abandono. Filho querido, aconselho-te partir, de preferência para uma grande cidade, onde as potencialidades são infinitas. Civilização, é disso que precisas. Mas não quero iludir-te, não se trata do paraíso. A tristeza humana está por toda parte. No começo estranharás a pressa, o movimento, o contraste mais nítido entre as classes, as maneiras menos cuidadosas, menos cerimoniosas e mais extrovertidas. Repararás o cansaço estampado no rosto da classe trabalhadora, e o tédio dos ricos. Estranharás também o submundo das estações e bosques, refúgio dos homens que odeiam a civilização, nutrem-se de seus deliciosos escapes, e não conseguem viver sem ela. Arrumarei sua mala, colocarei nela um retrato nosso, uma imagem de Nossa Senhora e meu livro de receitas, humilde legado de uma mãe pobre, que passou a vida sem viver. No começo, chorarás todos os dias, a solidão será pesada. Mas a juventude tem esperança e deve lutar pelos sonhos. No começo da vida, não devemos poupar esforços para atingir nossos sonhos. Se for preciso dormir em pé, que seja. A juventude suporta melhor as intempéries. O longo caminho pela frente e suas infindas possibilidades de destino animam e dão esperança. Vá, filho meu, a vida te chama; terei você sempre nos meus pensamentos e preces, principalmente no que tange a sua forma de amar, tão condenada. É um crime sufocares seu amor, por questões divinas. É um contrassenso que cristãos assassinem o amor.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A núvem

"Num dia do mês de lua azul, debaixo de uma jovem ameixeira, calmamente, segurei, nos meus braços, minha quieta e pálida amada, como um gracioso sonho . Sobre nós, num belo céu de verão, havia uma nuvem, em que meu olhar repousou. Era muito branca, e imensamente alta. Quando olhei para cima, havia sumido Desde esse dia muitos, muitos meses vêm flutuando e calmamente passando . Não há dúvida de que a ameixeira foi derrubada. Perguntarás: o que aconteceu com seu amor. Então lhe responderei: não me lembro. Mesmo assim, sei o que queres dizer. Mas, honestamente, não lhe consigo lembrar o rosto. Só sei que o beijei. E este beijo, eu o teria também esquecido, não fosse a presença da núvem. Disso ainda sei, e sempre lembrarei. Talvez essas árvores continuem a florescer ameixa E essa mulher agora pode ter tido o seu sétimo filho Mas essa nuvem floresceu por poucos minutos E quando olhei para cima, ela tinha desaparecido no vento."
Brecht

Celebridades made in Brazil

Hoje, folheando uma revista de fofocas, a falta de carisma, de talento e de sal das celebridades brasileiras entediaram-me. A mediocridade dos globais, especialmente jovens tipo malhação, é a Pedra da Gávea, parafraseando Nelson Rodrigues. Que graça tem Marcelo Novaes, Oscar Magrini, Eliana, Regiane Alves, ou Carolina Dieckmann? A Hollywood brasileira é um marasmo. Celebridades problemáticas e que dão pano para manga para tablóides resultam necessariamente da combinação de talento excepcional e muita grana envolvida. Não há, no Brasil, nenhum dos dois. O que se vê são celebridades insossas, chatas, que não param de parir, colocam nomes clássicos nos seus pimpolhos e passeam no Leblon. Estrelas voluntariosas, interessantes e carismáticas beiram a inexistência. Estava pensando em montar um tablóide aos moldes ingleses, mas, realmente, não há material, não há inspiração. Os famosos tupiniquins são extremamente comportados. Manchetes como "Adriane Galisteu redescobre o amor", "Na Villa de Caras, Viviane Victorette fala de sua paixão por animais" são desanimadoras. A imprensa social brasileira é demasiadamente respeitosa, puxa-saco, piegas, superficial. Bajula gente que não tem talento. Não explora adequadamente os gênios. Por um entretenimento mais emocionante, que seja feita uma evolução.

Rezem

Rezem pelos que passam anônimos no mundo, e não deixam vestígios. Rezem pelos loucos abandonados em sanatórios imundos, que gritam à noite, pensando estar a morte a sua espreita.Rezem pelos solitários confinados em quartinhos cinzas com vistas para algum muro pixado. Rezem pelos infelizes que pedem dinheiro na rua para poderem se entorpecer. Rezem pelos que não têm sorte, nem no amor, nem no jogo. Rezem pelos que não têm fé e continuam devido ao medo da morte. Rezem pelos separados, que perdem a alma com a partida do amante. Rezem pelos que só sabem amar contrariando as leis divinas. Rezem pelos belos e superdotados que vivem como ilhas solitárias entre a mediocridade. Rezem pelos que se anestesiam para não morrer, mas acabam morrendo em vida. Rezem pelos que se revoltam contra a crueldade de Deus, e buscam o Diabo. Ou pelos que louvam seus desígnios e acabam se resignando à desgraça. Rezem pelos condenados à morte, que sabem a data e a hora do fim. Rogai por nós.

sábado, 22 de novembro de 2008

Rezem - continuação

Rezem pelos nordestinos e miseráveis do mundo que, nas romarias, esbugalham os olhos marejados, levantam a mão aos céus e pedem clemência. Rezem por aqueles que dependem de seus carrascos e aprendem a gostar da dor. Pois que em nome da vida, pratica-se inúmeras monstruosidades

Goiás

Melancólico pôr-do-sol do sertão
Fim de tarde em Goiás



Irei hoje para Goiânia, depois de muito tempo. Rever a terra natal, depois de ter conhecido o mundo, promete alguma coisa. Talvez eu consiga caracterizar minha identidade, ter consciência do que me tornei. Tenho medo de ter me tornado estrangeiro, de não me reconhecer nos goianos. Acontecimento comum aos andarilhos, que acabam não pertecendo a lugar algum, exceto às babéis, que têm identidades múltiplas, e onde há espaço para personalidades exóticas e cosmopolitas. De Goiás, lembro-me em especial da antiga capital, cidade natal de minha avó. Sorvete de murici na praça do coreto, benzedeiras que sempre diziam que eu estava de "espinhela caída", benzer-se com água benta nas centenárias e modestas igrejas, a hora do ângelus e sua melancólica música, procissões mágicas, entoadas pelo canto da Verônica e o barulho das matracas. Civilização triste, perdida nos confins da América do Sul, rascunho mal feito da Europa, isolada, pobre. Entoam músicas de amores perdidos, da solidão do sertão, do luar como principal espetáculo, naquelas paragens pacatas. Cercada de morros, construída no vale do Rio Vermelho, lembro-me das árvores centenárias, frondisíssimas, de espécies trazidas da Índia pelos colonizadores. Lembro-me dos becos, refúgio dos escravos e ladrões. Hoje, servem para quem, para fugir do tédio, se entorpece, atitude muito comum. Goiás Velho, ainda quero ouvir seus periquitos revoando ao final da tarde e assitir ao melancólico e solitário pôr-do-sol do alto da Santa Bárbara

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Ideais

Os bonitos ideais legitimam as mais terríveis monstruosidades. Os fortes, com seu bonito discurso, abordam os fracos, inspiram-lhes sonhos, prometem proteção, convencem-nos
a viver. Os meios mais sutis de dominação são profundos, eficientes, alienantes. Discorrendo sobre a liberdade, a igualdade, a fraternidade, os direitos humanos, hipnotizam-nos, escravizam-nos, engana-os. Estranho paradoxo, já mencionado por Wilde: por trás das melhores intensões, ocorrem os crimes mais brutais. Dominação covarde e hipócrita; melhor seria escancarar situação de desigualdade, de discrepância, de conflito entre os homens. Os bonitos ideais são utópicos, melhor não subestimar o poder da miséria, que pode ser infinita. O poço não tem fundo, talvez esteja aí o cerne do medo e do desespero humano. O desamparo é real, e Deus realmente nos abandona. Os fracos, submetidos, a princípio, pelos ideais, desiludem-se, dizendo: "Você diz uma coisa e faz outra", ou "Sua proteção está me matando", ou "Acho que você mentiu". Aprendem com os fortes a tiranizar por meio dos ideais, havendo o retorno do feitiço contra o feiticeiro. Ficam, assim, todos tiranizados pelos ideais, que revoltam a humanidade, devido ao contraste destes com a miséria circundante. Coitados de nós, seres atormentados, que conseguem vislumbrar o belo e o sublime. Se não tivéssemos a idéia de céu, paraíso , será que sofreríamos menos?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Quando me conheceu, reconheceu minha face infeliz, dissecou minhas fraquezas. Fiquei hipnotizado por suas críticas, o chamei de gênio. Disse-me que não era grave, um defeito simples, e prometeu me ajudar, discorrendo em voz suave e tranquila sobre belos ideais, como o bem, a liberdade, o amor, a tolerância. Ante a minha carência e solidão, de quem nunca havia sido compreendido, entreguei-me a ele cegamente, pensando ter eu, Madalena, finalmente, encontrado Cristo. Fiquei sob a sua tutela. Sim, ele é bom, e junto dele quero ficar. Ele entende os fracos, compadece-se dos criminosos, tolera o mal, tipo como ele não passará nunca mais na minha vida. Seus belos ideais me seduziram. Foi cruel ver o apodrecer da bondade, que vai definhando aos poucos, por ser considerada imoral, indecente, revolucionária. O projeto humano só pode dar em fracasso . Se somos livre, morremos. Se somos cativos, morremos também. Se somos sós, secamos. Se caminhamos juntos, a desilusão nos seca igualmente. Com ele, pensei que haveria felicidade, mas ele morreu logo em seguida. Logo ele, tão entusiasta da vida, tão otimista. Eu, fraco, triste e pecador, continuo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Alter - ego

Bovary

Norma Desmond

Tennessee in robe


Truman Capote e Marilyn Monroe



Marilyn Monroe

Blanche Dubois


Blanche Dubois

Tennessee Williams




Blanche e Kowalsky, belo contraste entre a delicadeza e a rudeza





Blanche Dubois

Carismáticos, sensuais, frágeis, sensíveis, refinados, cultos, inteligentes, sonhadores, infelizes, inúteis, viciados, desamparados, ansiosos, vítimas do mundo agressivo e grosseiro. Geralmente estão na corda bamba, vivem no improviso, começam do zero, lutam por cada dia. Quando chega a noite, estão exaustos e intranquilos. Sonham com a salvação. Sonham em serem achados. Sonham com um lugar à sombra. " I can´t live this way. God, I must take a lover.Valium, please, I need to sleep. I love to sleep" . Amo vocês!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Esposo infernal - Rimbaud (a perfeição poética)

VIRGEM LOUCAO esposo infernal
Vamos ouvir a confissão de um companheiro de inferno¹: "Ó divino Esposo, meu Senhor, não recusai a confissão da mais triste de vossas servidoras. Estou perdida. Estou bêbada. Sou impura. Que vida!"Perdão, divino Senhor, perdão! Ah! perdão! Quantas lágrimas! E quantas lágrimas ainda mais tarde, espero!"Mais tarde, conhecerei o divino Esposo! Nasci submissa a Ele. - O outro pode me bater agora!"Agora, estou no fundo do mundo! O minhas amigas!... não, não, minhas amigas... Jamais delírios nem torturas iguais... Que besteira!"Ah! eu sofro, eu grito. Eu sofro mesmo. Tudo, no entanto, me é permitido, carregada do desprezo dos mais desprezíveis corações."Enfim, vamos fazer esta confissão, nem que deva repeti-la vinte vezes mais - tão triste, tão insignificante!"Eu sou escrava do Esposo infernal, aquele que perdeu as virgens loucas. É mesmo este demônio. Não é um espectro, não é um fantasma. Mas eu que perdia sabedoria, que estou danada e morta ao mundo - não me matarão! - Como descrevê-lo! Não sei mais nem falar. Estou de luto, choro, tenho medo. Um pouco de frescor, Senhor, se quereis, se bem quereis!"Sou viúva... - Era viúva... - sim, eu fui muito séria antigamente, e não nasci para me tomar esqueleto!... - Ele era quase uma criança... Suas delicadezas misteriosas me seduziram. Esqueci todo o meu dever humano para segui-lo. Que vida! A verdadeira vida está ausente. Não estamos ao mundo. Eu vou onde ele vai, é preciso. E muitas vezes ele se irrita contra mim, mim, a pobre alma. O Demônio! - E um Demônio, você sabe, não é um homem."Ele diz: Não amo as mulheres. O amor deve ser reinventado, é sabido. Elas não podem mais querer nada além de uma situação segura. A posição conseguida, coração e beleza são postos de lado: resta apenas frio desprezo, o alimento do casamento hoje. Ou então eu vejo mulheres com os sinais da felicidade, das quais eu poderia ter feito boas companheiras, engolidas primeiro por brutos sensíveis como fogueiras...""Eu o escuto fazendo da infâmia uma glória, da crueldade um charme. "Sou de raça longínqua: meus pais eram escandinavos: eles furavam as costelas, bebiam seu sangue. - Farei feridas em todo meu corpo, tatuagens, quero me tornar medonho como um mongol: você verá, eu vou berrar pelas ruas. Quero ficar bem louco de raiva. Nunca me mostre jóias; eu rastejaria e me torceria no tapete. A minha riqueza, eu a queria manchada de sangue em todo lugar. Nunca trabalharei..." Em muitas noites, o seu demônio me pegando, nos rolávamos, eu lutava com ele! - De noite, muitas vezes, bêbado, ele se coloca nas ruas ou nas casas, para assustar-me mortalmente. "Vão me cortar realmente o pescoço; será nojento." Oh! estes dias em que ele quer andar com o ar do crime!"As vezes ele fala numa espécie de dialeto suavizado, da morte que faz arrepender, dos infelizes que existem certamente, dos trabalhos duros, das despedidas que rasgam os corações. Nas espeluncas onde nos embriagávamos, ele chorava considerando os que nos cercavam, rebanho da miséria. Ele punha de pé os bêbados nas ruas negras. Ele tinha a piedade de uma mãe maldosa com as criancinhas. - Ele ia embora com gentilezas de menina no catecismo. - Fingia estar informado sobre tudo, comércio, arte, medicina. - Eu o seguia, é preciso!"Eu via todo o cenário com que, em espírito, ele se rodeava; vestidos, lençóis, móveis: eu lhe atribuía armas, uma outra cara. Eu via tudo o que o tocava, como ele teria querido criar para si. Quando ele me parecia ter o espírito inerte, eu o seguia em ações estranhas e complicadas, longe, boas ou más: eu tinha a certeza de nunca entrar no seu mundo. Ao lado de seu querido corpo adormecido, quantas horas, noites eu velei, tentando entender por que ele queria tanto fugir da realidade. Nunca homem nenhum teve igual desejo. Eu reconhecia - sem temer por ele - que ele poderia ser um sério perigo na sociedade. - Ele tem talvez segredos para mudar a vida? Não, só faz procurá-los, me respondi. Enfim, a sua caridade é enfeitiçada, e eu sou a prisioneira. Nenhuma outra alma teria força suficiente - força de desespero! - para suportá-la - para ser protegida e amada por ele. Aliás, eu não o imaginava com outra alma: a gente vê o seu Anjo, nunca o Anjo de um outro - acredito. Eu estava na sua alma como num palácio que foi esvaziado para não ver uma pessoa tão pouco nobre quanto nós: eis tudo. Infelizmente! eu dependia mesmo dele. Mas o que ele queria com minha existência pálida e covarde? Ele não me tornava melhor, mesmo se não me fazia morrer! Tristemente decepcionada, eu lhe disse algumas vezes: "Eu te entendo". Ele levantava os ombros."Assim, a minha tristeza voltando sempre, e me achando mais perdida aos meus olhos - como a todos os olhos que quisessem me encarar, se eu não tivesse sido condenada para sempre ao esquecimento de todos! - eu tinha cada vez mais fome de sua bondade. Com seus beijos e abraços amigos, era mesmo um céu, um escuro céu, onde eu entrava, e onde gostaria de ser deixada, pobre, surda, muda, cega. Já eu me acostumava. Eu nos via como duas boas crianças, livres de passear no Paraíso de tristeza. Nós nos dávamos bem. Emocionados, trabalhávamos juntos. Mas, após uma penetrante carícia, ele dizia: "Como vai te parecer estranho, quando eu não estiver mais aqui, aquilo pelo qual você passou. Quando você não tiver mais meus braços sob o teu pescoço, nem meu coração para descansar, nem esta boca nos teus olhos. Porque será preciso que eu vá embora, muito longe, um dia. E devo ajudar outros, é meu dever. Embora isto não seja muito agradável... querida alma..." Imediatamente eu me pressentia, ele tendo partido, tomada de vertigem, jogada na sombra a mais horrível: a morte. Eu lhe fazia prometer que ele não me largaria. Ele a fez vinte vezes esta promessa de amante. Era tão frívolo como eu lhe dizendo: "Eu te entendo...""Ah! eu nunca tive ciúmes dele. Ele não me deixará, acredito. Para tornar-se o quê? Ele não tem uma relação, não trabalhará nunca. Ele quer viver sonâmbulo. Sozinhas, sua bondade e sua caridade lhe dariam algum direito no mundo real? Por instantes, esqueço a piedade onde caí: ele me deixará forte, viajaremos, caçaremos nos desertos, dormiremos nas mas de cidades desconhecidas, sem cuidados, sem penas. Ou eu acordarei, e as leis e os costumes terão mudado - graças ao seu poder mágico, - o mundo, continuando o mesmo, me deixará a meus desejos, alegrias, preguiças. Oh! a vida de aventuras que existe nos livros das crianças, para me recompensar, eu sofri tanto, você a dará para mim? Ele não pode. Ignoro o seu ideal. Ele me disse ter saudades, esperanças: isto não deve me dizer respeito. Será que ele fala com Deus? Talvez eu devesse pedir a Deus. Estou no mais profundo abismo e não sei mais rezar."Se ele me explicasse as suas tristezas, será que as entenderia melhor que as suas zombarias? Ele me ataca, ele passa horas a me deixar com vergonha de tudo o que me tocou no mundo, e ele fica indignado se eu choro."- Estás vendo este jovem elegante, entrando na bela e calma casa: ele se chama Duval, Dufour, Armando, Maurício, que importa? Uma mulher se dedicou a amar este idiota maldoso: ela morreu, é com certeza uma santa no céu, agora. Você me fará morrer como ele fez morrer esta mulher. E o nosso destino, a nós, corações caridosos..." Infelizmente! ele tinha dias em que todos os homens agindo lhe pareciam os joguetes de delírios grotescos; ele ria horrivelmente, muito tempo. - Depois, ele retomava suas maneiras de jovem mãe, de irmã amada. Se ele fosse menos selvagem, estaríamos salvos! Mas a sua doçura também é mortal. Eu lhe sou submissa. Ah! Sou louca!"Um dia talvez ele desaparecerá maravilhosamente; mas é preciso que eu saiba, se ele deve subir para um céu, que eu veja um pouco a assunção² do meu amiguinho!" Casal esquisito!

Lust



O meu desejo é trocado. O meu corpo necessita daqueles que têm, por mim, o mais absoluto desprezo. Fingem que não me vêem, tratam-me como se fosse de raça inferior. Me acham sujo, imoral. Eu vivo tentando convencê-los de que o sujo tem uma magia peculiar. O pecado, digo, nos torna cúmplices, a solideriedade é mais forte na fraqueza, no feio, no horror. Ademais, meu olhar, espelho da minha exuberante luxúria, desperta curiosidade. A aberração também têm seus argumentos de sedução, por que não? Alguns levantam a mão, e dão-me na cara. Outros me cospem. Graças a Deus, há os que caem na minha lábia. Me sujam, me lambuzam, me abusam, me contam suas mais secretas taras, extravasam toda sua luxúria, já que é sujo, vamos à forra. Tomam banho e saem com a consciência pesada, jurando nunca mais me procurar, chamam-me demônio, o que não é de todo mentira, visto que sobrevivo melhor à noite, em tavernas decadentes, entre os embriagados. Alguns realmente não voltam. Outros viram cativos, evidenciando que algum encanto há de haver no impuro, o que me conforta. Moleques, inconsequentes, ingênuos, não levam a vida muito a sério. A força que têm para a guerra, para a destruição, me excita. São solidários uns com os outros, desenvolvem amizades bonitas. Falam alto, numa algaravia tremenda, discutindo sempre assuntos chatos, mas encantadores por serem tipicamente deles: futebol, fórmula 1, carros, baladas, uísques. É isso, confissões de um libertino.

O dilema das cortesãs


Elephant Love Medley


Ewan: Love is a many splendoured thing, love, lifts us up where we belong, all you need is love.

Nicole: Please, don't start that again.


E: All you need is love.

N: A girl has got to eat.


E: All you need is love.

N: Or she'll end up on the streets.


E: All you need is love.

N: Love is just a game.


E: I was made for loving you baby, you were made for loving me.

N: The only way of loving me baby, is to pay a lovely fee.


E: Just one night, give me just one night.

N: There's no way, ?cause you can't pay.


E: In the name of love, one night in the name of love.

N: You crazy fool, I won't give in to you.


E: Don't leave me this way, I can't survive, without your sweetlove, oh baby, don't leave me this way.

N: You'd think that people would have had enough of silly love songs.


E: I look around me and I see, it isn't so, oh no.

N: Some people want to fill the world with silly love songs.


E: Well what's wrong with that, I'd like to know, ?cause here I go Again...Love lifts us up where we belong, where the eagles fly, ona mountain high.

N: Love makes us act like we are fools, throw our lives awayfor one happy day.


E: We could be heroes, just for one day.

N: You, you will be mean.


E: No I won't!

N: And I, I--I'll drink all the time.


: We should be lovers.

N: We can't do that.


E: We should be lovers, and that's a fact.

N: Though nothing, will keep us together.


E: We could steal time...Just for one day.

Both: We could be heroes, for ever and ever.We could be heroes, for ever and ever. We could be heroes...

E: Just because I will always love you.


N: I can't help loving you.How wonderful life is...

Both: Now you're in the world.



segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Dessa vez, amor

Venho pagando pelo seu sexo há algum tempo, por isso me acho no direito de te fazer um pedido. Desde que fiquei feio, venho pagando para transar. Afinidades intelectuais, visões compartilhadas me excitam, mas não tanto quanto um belo corpo, como o seu. Fora da cama, não temos nada em comum. Hoje eu queria te pedir um beijo na boca, senti saudades da minha juventude, que não concebia sexo sem amor. Peço que beije todo meu corpo, bem devagar, que me acaricie, vamos fingir que somos amantes. Replicarás que prostitutas vendem sexo, e não amor. Mas lhe digo, meu bem, que a ousadia e a imaginação fizeram a fama das maiores cortesãs, que vendiam amor, graça e charme. Dirás que é uma tarefa perigosa. Bom, as maiores glórias são realmente arriscadas e perigosas. Maior o risco, maior o retorno. Dessa vez, não vou lhe entregar o dinheiro diretamente, na cara dura, isso é por demais frustrante. Quando você pega as notas e as guarda em sua bolsa dizendo que agora sim poderá ir na manicure, fico muito deprimido. Cortesãs não falam dessas coisas mesquinhas e cotidianas. Comprarei-te o Kama-Sutra e o manual das gueixas, bem como a Dama das Camélias. Estou delirando, e o meu delírio de grandeza exalta ainda mais a minha pequenez. Estou com uma puta da zona, não com a Madame de Pompadour. Ai de mim!

Povo brasileiro

As diferenças colossais entre os ricos e os pobres brasileiros criam sentimentos estranhos, às vezes cruéis. Diferenças realmente profundas, diria até de alma, separa o Brasil em elite e povo, cada qual com uma ética para com o outro. Os ricos, que vivem escondidos por detrás dos muros eletrificados e de seus insulfilms e vidros blindados, têm prazer sádico em saber dos pormenores das tragédias que a miséria traz. Tratam os pobres como animais exóticos, espantando-se com suas histórias do arco-da-velha, contadas por empregadas e demais serviçais. Sua filha roubou seu namorado? Seu marido abusou de sua filha? Verdade que você já morou debaixo de uma mangueira? Como é pegar três ônibus? Seu marido matava para ver o tombo? Cansei de presenciar conversas desse tipo, que os pobres adoram contar para chocar e amealhar a piedade das madames. Os grã-finos adoram ouvir. Alguns ficam consternados, revoltam-se e são acometidos pelo espírito de Buda. A maioria, porém, considera tais fatos prosaicos, curiosos e irremediáveis, apiedam-se um pouco, e soltam frases como "Pobre sofre, né", ou, "Pobre é pobre, não tem jeito". O cinema brasileiro explora essa tara da elite brasileira por desgraça de pobre, haja vista os diversos favela movies por aí. Uma cena da peça "Boca de Ouro", de Nelson Rodrigues, expõe com maestria esse fenômeno social brasileiro: a grã-fina pergunta ao bicheiro se é verdade a história de ele ter nascido numa pia de gafieira. O desenlace da cena é tenso, marcado pela frivolidade cruel das grã-finas e a reação violenta do bicheiro ante a humilhação. Situação complicada, constrangedora e revoltante. Depois de mais de um século, a casa-grande e a senzala persistem, e o Brasil, digamos, ainda é um país escravocrata.

Bonjour Venezuela

Os direitos humanos deveriam contemplar mais um direito inalienável do homem: passar um verão em Paris, aos 18 anos. No auge da beleza, romantismo, ingenuidade e curiosidade sexual, amores de verão vêm a calhar. Felizmente tive esta oportunidade, e tenho recordações muito agradáveis de não apenas um amor de verão, mas três, cada qual com um representante de um canto do mundo( México, França, Tunísia). Os flertes, em Paris, acontecem a toda hora, n´importe où, n´importe comment, n´importe quand. A cidade exala o desejo do encontro, expressado em músicas como " Au feu rouge, j´ai trouvé l´amour de ma vie". Sim, em Paris, o amor pode estar na esquina, ou na próxima estação de metrô. Isso é possível. O flerte acontece de maneira extremamente cosmopolita. Cada nacionalidade tem um jeito de amar. Magrebinos têm a fama de serem bem dotados. Latino-americanos, de beijarem bem. Franceses, de serem perversos e criativos. Nórdicos sempre vêm com seus assessórios e gemidos broxantes, parecidos com os dos americanos, do tipo ohhhh yeah, ohhhh, ohhhh dos filmes pornôs. Nas baladas, festivais de saluts e bonjours que têm deliciosas consequências, como o êxtase de fazer amor em algum pequeno quarto de hotel de Montmartre, avistando, da janela, toda a monumental capital francesa. No outro dia, passear au bord de la seine, vivendo em idílio. Aos 18 anos, fui a Paris e fiz, sem falsa modéstia, sucesso. Moreno, jovem, bonito, latino. Tu est andalous, napolitain, venezuelain, ou cubain? - perguntavam-me, referindo-se às mecas da latinidade sensual. Brésilien, respondia. Tant mieux, les brésiliens baisent bien, allons-y mon cher? No Charles de Gaulle, prestes a retornar ao Brasil, a sensação prazerosa de ter descoberto o mundo. Sim, o que enriquece nossas vidas são, definitivamente, nossas ousadias e aventuras, principalmente no que concerne o mistério do amor.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Saló, antes viciada em valium e ecstasy, agora consegue sentir prazer sóbria. Saló, depois de ver dois homens se beijando, desatou a chorar. Não foi tristeza; Saló percebeu, pela primeira vez, que o mundo é exuberante, belo e que uma harmonia maior abarca a desarmonia aparente. Desde então Saló tem o olhar tranquilo, a feição serena, a voz suave. Diz não ter mais medo, acredita que nunca será desassistida, mesmo que um dia vá parar na sarjeta de alguma rua próxima à Catedral da Sé. Até na sarjeta há Deus, afirma. Seu amor incondicional pela vida torna-lhe todas as experiências humanas válidas, não havendo muita diferença entre a mendicância e a bonança. São dois lados da mesma moeda. Saló não foi compreendida, escandalizou a família, deu nós na cabeça dos psicólogos, foi-lhe diagnosticado o transtorno da felicidade infundada, doença muito grave. Receitaram-lhe um anti-psicótico, que a deixa apática e triste. A medicina, com os fatos provados a seu favor, mais uma vez soube o que seria melhor para a suposta louca

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

My friends

A aridez dos dias obriga-me a encontrar prazer na dor. Não tenho para onde correr. Para não morrer, tornei-me masoquista. Caminho só, esperando, em cada pessoa que vejo, o remédio, o alívio. Se nossos olhares se cruzam ao menos uma vez, conjecturo que, talvez, tenha chegado ao fim o meu caminho ao sol. Não me canso mais da minha compania enjoativa; já disse: o mal não me assusta mais. Já vivi situações inteiramente díspares. Já morei na pior e na melhor cidade, já comi no Tour D´Argent e, também, em algum serv serv(self-service) da Belém-Brasília. Já vivi em mansões, mas também em espeluncas. Já tive beleza, hoje não mais. A diferença? Direi: nenhuma, salvo o percurso. Todos os caminhos levam a Deus, de alguma maneira. A única coisa que não tive foi alguém que me amenizasse a realidade, que me fizesse viver em idílio, que me levasse para a melhor cidade do mundo e me mostrasse o universo. Dirão que estou querendo demais. Responderei que Bovarys não enxergam limites, tomam qualquer caminho para evitar a mesmice da vida prática e funcional. Apodreço com o passar das horas. Aleijados, loucos, escravos, só eles me notam.

Ai de ti, beleza

A beleza dispensa argumentos. A beleza é contundente. A beleza é um fato. Alimento da minha vida, tão escasso. Por isso vivo, por aí, sempre a te procurar, faminto. Coitados ne nós, sapos, que hipnotizados por ti, pensamos que um dia a teremos. Genialidade máxima de todo criador, a beleza produz narcisos, diversas ilhas, tragédias. Pois que a beleza não é a única coisa no mundo. Autocrática, tiraniza a alma dos poetas, que viciadamente, a cantam e, não recebem mais do que um sorriso triste, constrangido. Condenados a morrer afogados em si, os belos vivem insatisfeitos, melancólicos, perguntando a razão de serem tão sozinhos. Expiação da feiura, são sacrificados para aplacar os males. Nada os encanta, não há saída para seu tédio. Os vaidosos ficam sós. Os generosos são violentados. Só o poeta pode ser sua compania, só o sapo sabe adimirar a Lua.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Amor estéril

Depois de nosso estéril sexo, ficamos nos perguntando se conseguiremos viver juntos por muito tempo. O gozo, única justificativa para o nosso relacionamento, fatalmente se esgotará e nada mais nos prenderá. Somos sementes secas, que amam e morrem sem deixar vestígios. Será nosso amar uma maldição? Amores estéreis precisam ser mais divertidos dos que os que frutificam. Amores estéreis são um fim em si mesmo. Amores estéreis são mais problemáticos. Quando acordo de manhã, ao teu lado, busco palavras novas, interessantes, criativas e ensaio meu primeiro olá. Amores estéreis precisam de novidade, a rotina é nossa inimiga. Não tenho tanta criatividade assim e, por isso, vivo angustiado ante a possibilidade de você enjoar de mim. Vivo com medo de que um dia nos estranhemos um ao outro, de não nos reconhecermos mais e , daí, mais uma história de amor acabar, custando a morte de nosso cupido. Se estou pensativo e circunspecto, talvez seja por causa disso. Você, com sua aversão a tudo que não seja prazer, talvez esteja enganado sobre a vida. Está perdendo a oportunidade de enriquecer o seu repertório. Aviso-lhe, não serei perfeito por muito tempo. Devemos romper por causa disso? Espero que o sonho humano de construir, não muito evidente em você, prevaleça. Estou, para variar, dependendo de um milagre.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Copacabana

Da janela de um apartamento apertado de copacabana, observando a rua, percebo a vibração do bairro. Cheiro de maresia, de gás, barulho de latinidade tropical, buzinas, sirenes, discussões nos bares, ônibus. Espremido entre os monolitos de granito, prédios sessentistas e o atlântico, alimento-me da decadência das fachadas, da agressividade das favelas, do paraíso perdido e profanado. Em copacabana, se é solitário, sem sê-lo. O ponto de encontro é a praia. Lá, aliviado da asfixia decorrete da falta de espaço, das ruas apertadas e congestionadas, dos apartamentos minúsculos, vê- se o infinito. A vida social, superficial, e, por isso, extremamente aprazível, acontece em algum quiosque da avenida atlântica, regada a cerveja itaipava, tainha, mpb, ou samba. No calcadão, passa de tudo: velhos, turistas, michês, putas, mulatas, sambistas, meninos do Rio, ou o tradicional morador de copacabana. Bairro sensual, boêmio, barulhento, não dorme nunca. Não há melhor lugar para um solitário insone como eu. Vitrine do Brasil para o mundo, copacabana exala o desleixo, a naturalidade, a sensualidade, a cordialidade do brasileiro. Não raro, observa-se gringos com os olhos arregalados, desntendidos com o barulho, a vida, a bagunça e o frenesi de uma latinidade elevada à milésima potência. Nápoles tropical. Copacabana, teu nome é vida!

Comércio pífio

Vendo os orkuts da vida, geralmente de pessoas jovens, encontro inúmeras fotos de festas, baladas, churrascos, todas com muita gente sorrindo, gargalhando, fazendo caras e bocas, enfim se divertindo, ou fingindo que se divertem. Eu nunca desnvolvi um comércio intenso com meu semelhante. Minha analista disse que eu vivo constantemente na fantasia, pois nunca estou no meio termo, ou estou além, ou aquém da humanidade. Daí, talvez, o problema de relacionar-me, pois raramente ocorre identificações e afinidades. Sinto sempre que sou um ser atípico, raro, identifico-me mais com os personagens de ficção, do que com os reais. A impossibilidade de viver a vida nos seus aspectos comezinhos, práticos e mesquinhos, que se afastam da arte, produz muito tédio. E a realidade é tédio. Voltando às baladas: detesto churrascos, ou qualquer festa em que fazer o social é imprescindível. Festa na qual conheço todo mundo é um porre. Aliás tenho baixa tolerância a abobrinhas, aquela conversa fiada chata para demonstrar o mínimo de amistosidade pelos presentes. Daí minha preferência por boates. Nas boates, geralmente somos anônimos, mal enxergamos uns aos outros, a música freia a comunicação dispensável, além do componente lúdico da dança, bebida e paquera. Dançar, para mim, tem muito a ver com sedução, exibicionismo, hipnose sobre o objeto de desejo. Portanto, dançar bem numa balada é fundamental, vamos combinar. Embora poucas vezes tenha visto alguém dançar em estado de transe, como as dançarinas de flamenco, ou as meninas que tomam ecstasy. Ter um transe pode ou não ser efeito de droga. Depois de 2 anos sem dançar, fui ao Le Boy, no Rio, e eu estava com tanta energia reprimida, que dançei freneticamente a balada inteira sem parar. E não tomei nada, nem bebida, só água. Com água na mão e despirocando na pista, todos pensaram que eu estava drogado. Adoro dançar. Lembro-me de uma vez na Loca que dispensei um carinha para dançar. Estou precisando sair para a balada

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Juízo post-mortem

Os sonhos são para mim tão importantes quanto o eram para os faraós. Neles busco inspiração, tenho insights premonitórios e filosóficos. Meu inconsciente me manda coisas que na hora não entendo. Acordo intrigado e, no banho da manhã, vou tentando desvendar o que essa instância psíquica tão enigmática quer me dizer. Nessa noite, sonhei com a minha tia suicida. Lembro apenas que ela disse que o inferno é vazio, porque no juízo, o homem conta com um advogado muito bom, que alega sempre que somos inocentes, dizendo sempre no arremate final: " Faço das minhas palavras as mesmas proferidas por Cristo no último suspiro " Pai, perdoa-lhes, não sabem o que fazem"". O Homem tem conhecimento do que é o bem e o mal, mas raramente sabe distingüir quando faz um e/ ou outro. Pode-se depreender isso de ditados populares como " de boas intensões o inferno está cheio", ou, "Errei, pensando que iria acertar". Os enganos são muitos, não temos bom juízo, e, portanto, navegamos no escuro, na imprecisão. Pensando mais a respeito, cheguei à conclusão de que apenas os que têm uma consciência ampla do que é o bem e o mal podem ser julgados. São, acredito, uma ínfima parcela da humanidade. Dentre eles há três tipos: O santo, o pecador e o maquiavélico. O santo é aquele que ama o bem e abstem-se do mal. Geralmente são mártires, pois a bondade pura raramente é compreendida pelos demais. São, pois, criaturas que só podem ser felizes na outra vida, ao lado de Deus e dos querubins. Os pecadores, no sentido oposto, são aqueles que amam o mal. Que vêem nele algum tipo de beleza e fascínio. São os preferidos de Lúcifer. Segundo Santa Bernadette de Lourdes, são os únicos pelos quais devemos rezar. O maquiavélico, por fim, é indiferente a essas forças opostas, agindo de forma amoral. A ele, tanto faz o bem, ou o mal, sendo as circunstâncias e os fins o fator que molda seu comportamento. É difícil julgar o tipo amoral e maquiavélico, pois ficam a meio caminho entre o céu e o inferno. São condenados ao purgatório, morada divina mais parecida com a Terra. São, talvez, os verdadeiros humanos, os que vivem mais intensamente e com maior paixão. São os que formam aquelas enormes filas de reencarnação a que se referem os livros espíritas. Acostumados à liberdade e à amplitude do escopo de ações na Terra, querem sempre voltar e morrem com muito pesar. Quando penso neste, lembro do personagem Chicó, de " O Auto da Compadecida".

Goiás Velho

Chegando às margens do Rio Vermelho, quando criança, o filho do Anhangüera deslumbrou-se: pepitas de ouro à mostra no aluvião do sertanejo rio. A América enfim estava ganha. O Eldorado achado. Lembrando-se da tristeza e da pobreza de São Paulo de Piratininga, prometeu a si mesmo que ali voltaria assim que crescesse. Desse sonho americano, com peculiaridades paulistas, nasceu Goiás. O paulista, americano desiludo com o novo mundo, vivendo em situação de semi-desterro, desde cedo sonhou com a decoberta de metais preciosos, querendo para si a sorte dos espanhóis.
Quando cresceu, Bartolomeu Bueno da Silva Filho realizou o seu sonho, organizou uma bandeira que, tal como a expedição de Colombo, era calcada no impreciso, numa aventura desconhecida e , portanto, perigosa. Mesmo desenganado, o bandeirante partiu, certo de que encontraria o Vale do Rio Vermelho. A aventura foi proporcional às dificuldades esperadas pelos paulistas. A bandeira se perdeu e chegou a Goiás desfalcada, doente, muito além do tempo esperado para a empreitada. O ouro ainda estava lá. Pepitas a reluzir, índios ornados. Os paulistas, maravilhados, logo deram um jeito de fazer chegar à velha Piratininga a boa nova. Qual não foi o ânimo que as descobertas bandeirantistas insuflaram na população paulista.
Goiás nasceu em meio à euforia. Afluiram , para o sertão, paulistas de todos os cantos. Munidos de espírito aventureiro e colonizador, partiram de São Paulo, talvez para nunca mais voltar. E, assim, o paulista, variante degredada do português, fundou Goiás.
Goiás ainda é a mesma da época colonial. Assemelha-se muito à velha São Paulo dos bandeirantes, marcada pela rusticidade, civilização isolada e mestiça, e, por isso, bastante peculiar. Observa-se no goiano, especialmente no vilaboense, sintonia forte com a natureza. Adoram banhar-se nos rios, explorar as matas, subir os morros. É um povo estóico, asceta , rústico, avesso ao luxo, ao supérfluo. Isso pode ser observado na arquitetura da antiga capital goiana, cujos prédios públicos e igrejas são simples, ascetas, extremamente simples. O vilaboense é um dos grandes fóssiles sociológicos do Brasil, na medida em que guardam grandes similaridades com o paulista pré-café.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Mulheres

Amigas
compreensivas
conciliadoras
Putas
decotadas
insinuantes
Rosas
amenizam
enfeitam
Mães
Guardiãs do lar
caprichosas
Mulheres
morada do medo
inseguras

Lucro

Não sou especialista, mas mesmo assim vou dar alguns pitacos sobre este que é o maior e mais representativo fruto do egoísmo humano e base do sistema econômico vigente. O lucro pressupõe, de início, que devemos receber mais do que dar. A idéia de cortar ao máximo custos implica uma incoerência que resulta na superprodução e subconsumo. Na medida em que os custos representam o que o capitalista dá, estes são, portanto, o alimento que enriquece a sociedade, que lhe dá capacidade de consumo, que lhe dá vigor. A política de baixos salários é um contrassenso, pois representa corte de custos, acarretando diminuição do poder aquisitivo. A economia de escala contribui para este fenômeno que está na base da contradição capitalista que acarreta concentração de riqueza, esforços desperdiçados e a realidade de que o egoísmo, na sua ânsia por vantagem sobre outrem, acaba prejudicando a nós mesmos, na medida em que o ser humano, para viver, depende do comércio que estabelece com o seu semelhante. Se destruímos o nosso semelhante através de uma conduta histórica de subtração e exploração, ficaremos sozinhos e, fatalmente, morreremos. Se nesse comércio, todos procuram obter vantagem, lucro, estamos condenados à discórdia, ao desequilíbrio, ao fenômeno manada, com todos agindo da mesma forma, não havendo complementaridade no comportamento humano. As unanimidades são perigosas, porque eliminam a diferença que está na base da complementaridade das realações humanas. Mais ou menos a história do que seria do amarelo se todos gostassem do azul. Isto posto, o capitalismo seja, quiçá, o sistema econômico mais impopular de toda história humana. A justificativa da dominação de uma classe sobre outra é a mais frágil e mesquinha que já houve. Se nas outras eras, tal dominação era calcada em argumentos mágicos e místicos, o que até provocava uma maior boa vontade de se submeter, a racionalidade de hoje despe o ser de toda fantasia, dá-lhe um banho de realidade, diz-lhe, na cara dura, que, apesar de sermos todos iguais, não é bem assim que funciona.
 
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