sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Save m nice young men

Todo o dia, fico esperando ser achado pelo mundo. Certamente serei achado, sou incomum. A média é muito vasta. Checava todos os dias minha caixa de correio. Nenhuma mensagem, ninguém havia ouvido minha genial poesia. Caía em profunda crise de identidade. Mais uma vez, em desespero, o enigma que sou não havia sido desvendado e certamente nunca o será. Perdi meu espírito numa festa. Eu, Narciso, encontrei alguém mais belo que eu. Encolhi-me num casulo e pensei ser o pior dos vermes, e os seres humanos, deidades. Um verme não se comunicar com deuses, pode insuflar-lhes ira pela sua conversa revoltada e miserável. Calei-me por muito tempo. Só conseguia conversar com a morte, que se apiedava de mim, e me prometia o fim. Os espelhos, antes meus amigos, passaram a ser meus algozes. Meu olhar não tinha mais aquela charmosa arrogância e tédio. Era um olhar inerte e sem esperança semelhante ao dos que morrem de solidão. Pensei em processar o mundo por haver pessoas mais belas do que eu; há de haver uma lei que me defenda. Será que a lua sabe de sua cativa e apaixonada platéia? Ela brilha solitária, não importa em não ser notada. Espalha sua beleza pelo vasto e desabitado universo, nem imagina quanto amor e sonho inspira. Será que sou como a lua? Fico feliz em pensá-lo, mas logo o carrasco chega e diz que sofro de delírios de grandeza. Nas noites de luar, tento recuperar minha vida. Vou aos bares e fico reparando os jovens otimistas, que conversam somente sobre mulheres, carros e dinheiro. "Não posso ser eu a satisfazê-los; ouvi toda essa conversa chata, sorri, diverti vocês. Não perceberam meu olhar de frágil e luxuriosa mulher, nesse rosto de homem Eu daria tudo para que vocês me devotassem ínfima parte do desejo que têm pelas putas". Minha fala não lhes inspirou nada além de pensamentos suicidas. Minha refinada poesia não se compara à amizade que eles têm. Vamos, brother, se for preciso, vamos até o inferno. Haveremos de vagar por essa noite triste até encontramos uma mulher. Com você posso dividir meus tormentos, mas as mulheres têm melhores ouvidos para os lamentos de um homem" Fiquei sozinho, pedi uma caipirinha forte, e ri-me da minha ousadia. Como são adoráveis, preciso tanto deles.Lua, realmente não sou como ti nos seus melhores dias. Meu espetáculo se assemelha aos dias em que és eclipsada.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Noite estrelada

E tenho sono leve. Acordo com qualquer barulho, até mesmo com o de uma pena que cai sobre o asfalto. Acordo sobressaltado com o clamor do mundo. "Não me deixes, imploro-te", "Não serei mais seu amigo, não espere mais ligações minhas, você não é engraçado", "Não te beijarei, só beijo quem é normal", "Se você me ama, por favor, me mate", "Você é um ótimo profissional, mas não serve para o cargo , porque você é um gênio", "Dorme ,filho, assim a fome passa", "Meu livro Etiqueta por uma vida melhor não me aconselha a dirigir palavras a pessoas da sua laia", "Como você é indecente, você não sofre como eu.". "Desculpe mas não posso fazer nada por você, a lei não permite; Mas eu posso morrer, não tem como abrir uma exceção?; Não,devemos seguir fielmente nossas leis para que tenhamos uma sociedade perfeita", "Desculpe, nunca mais confiarei em você, você não é racional e sensato, você não me bajulou". Sempre que ouço a palavra "desculpa", fico apavorado. São os murmúrios que consigo nitidamente ouvir. Aproximo-me da janela, olho para baixo,vejo um mendigo entorpecido com olhar de alívio. Olho para cima, e lá estão minhas amigas mais agradáveis, as estrelas, que amainam minha solidão. Esperançoso, fico encantado com aquantidade de moradas desse universo. Ouvindo o chorar surdo dos humanos, grito aos habitantes celestes que venham me buscar. Tenho curiosidade irresistível para conhecer novas civilizações. Será que minha voz conseguirá atravessar distâncias de anos-luz. Não acredito que as estrelas estajam tão longe da nós, como dizem os cientistas. Onde será que há paz? Naquela mais apagadinha, ou naquela mais cintilante? Onde será a residência de Deus? Será que aquela minha estrela preferida não existe mais? Quando é que eles virão? Peço um sinal ao meu anjo da guarda. Atendeu-me uma vez, quando finalmente chorei, depois de décadas sem derramar uma lágrima, por considerar-me mau. Uma bela estrela-cadente caíu, pedi pelos que passam anônimos no mundo, e não deixam vestígios. Pedi pelos loucos abandonados em sanatórios imundos, que gritam à noite, pensando estar a morte à espreita. Pedi pelos solitários confinados em quartinhos cinzas com vistas para algum muro pixado. Pedi pelos infelizes que pedem dinheiro na rua para poderem se entorpecer. Pedi pelos que não têm fé e continuam devido ao medo da morte. Pedi pelos separados, que perdem a alma com a partida do amante. Pedi pelos que só sabem amar contrariando as leis divinas. Pedi pelos belos e superdotados que vivem como ilhas solitárias entre a mediocridade. Pedi pelos que se anestesiam para não morrer, mas acabam morrendo em vida. Pedi pelos que se revoltam contra a crueldade de Deus, e buscam o Diabo. Ou pelos que louvam seus desígnios e acabam se resignando à desgraça. Pedi pelos condenados à morte, que sabem a data e a hora do fim.Pedi pelos miseráveis do mundo que, nas romarias, esbugalham os olhos marejados, levantam a mão aos céus e pedem clemência. Pedi por aqueles que dependem de seus carrascos e aprendem a gostar da dor. Pedi por mim, enfim.

Judy Garland - Over The Rainbow (Subtitiles)

DEpois de dez anos sem chorar, essa cena me emocionou

Cats Musical - Memory

Daylight
See the dew on the sunflower
And a rose that is fading
Roses whither away
Like the sunflower
I yearn to turn my face to the dawn
I am waiting for the day . . .

Midnight
Not a sound from the pavement
Has the moon lost her memory?
She is smiling alone
In the lamplight
The withered leaves collect at my feet
And the wind begins to moan

Memory
All alone in the moonlight
I can smile at the old days
I was beautiful then
I remember the time I knew what happiness was
Let the memory live again

Every streetlamp
Seems to beat a fatalistic warning
Someone mutters
And the streetlamp gutters
And soon it will be morning

Daylight
I must wait for the sunrise
I must think of a new life
And I musn't give in
When the dawn comes
Tonight will be a memory too
And a new day will begin

Burnt out ends of smoky days
The stale cold smell of morning
The streetlamp dies, another night is over
Another day is dawning

Touch me
It's so easy to leave me
All alone with the memory
Of my days in the sun
If you touch me
You'll understand what happiness is

Look
A new day has begun


Quando vi essa parte do musical, não contive meu pranto

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

A serpente

Aquele deserto parecia não ter fim. Vinha andando por dias e noites sem descanso em busca de algum oásis, onde pudesse limpar as chagas causadas pelo sol inclemente e matar minha sede. Foi um andar incerto,nãoconseguia enxergar; a luz a ofuscar meus olhos, e o breu da noite faziam-me andar à deriva. Nem visões delirantes tive. Eu senti cada crueldade daquele deserto tórrido, não consegui resignar-me a ela. A dor não me é atraente, fujo dela desesperadamente. Em desespero, clamei a Deus a morte, detei-me no chão, e esperei ansiosamente que o sol me quiemasse por inteiro. O morrer é doloroso, e estava disposto a suportar a pior dor para findar para sempre com ela. De repente, do subsolo, emergiu uma serpente asquerosa, realmente nauseabunda, mas com uma bela e sedutora voz. "Tu queres matar tua sede?","sim, conheces algum oásis próximo?, respondi. " Que ingênuo você. Tu ainda não percebeste que ínfima parte de nossos anseios são satisfeitos? Ainda mais no que concerne o entorpecimento, o mais precioso e desejado anseio? Eu sei onde podes encontrá-lo. Ele nos faz sentir completamente satisfeitos. Não apenas tua sede será saciada.","Tu és a serva desse lugar", perguntei, "Não,sou a rainha", "Mas você é tão repugnante",repiquei. "Mind your words, belo jovem, senão posso apaixonar-me por ti. Nunca me trate com desprezo, senão morrerás certamente. Eu me apaixono violentamente por quem me desdenha. Mas o amor sempre me escravizou com obsessão e dor. Por isso, mato meus amantes, obsessões de amor desaparecem com o enlouquecimento mais perturbador, aquele que tira-lhe a capacidade de amar. Prefiro matar meus amantes a não me apaixonar nunca mais. Vamos, ainda tenho que ouvir a bajuladora, vazia e insossa poesia que as belas crituras fazem em minha homenagem" Segui-a. O inferno, de repente tornou-se paraíso. A beleza é realmente um entorpecente. "Eu que criei esse pequeno paraíso", disse a serpente em tom de desapontamento. O contraste de sua feiúra com a beleza circundante tornou-a insuportavelmente horrenda. "Como pode ter sido você a arquiteta desse Éden? Tu és asquerosa", repliquei. "Cuidado, estou começando a me apaixonar por você. É uma questão óbvia, quem sabe da miséria, certamente também consegue conceber as maiores nobrezas. O contrário não sei se ocorre. Presos nos seus palácios os gifted não conseguem intuir o que seja a miséria, sem ter-lhe contato." Chamou-me a atenção o mais belo pássaro que mais se devotava à serpente, e mais dela recebia bocejos e desprezo."Por que devota a ela tanta atenção? Ela é asquerosa, e você sublime?, perguntei. "Sou eternamente grato a ela por ter me criado, sou muito feliz" disse-me tristemente. " É estranho ver a beleza a serviço da feiúra, parece prostituição. Além de que aqui a beleza é falsa, os belos tem olhos atormentados, ou melancólicos", disse. "Como és ingênuo, não percebeste que a verdade é uma utopia. E me diga, o que se pode fazer com a beleza a não ser vendê-la para algum comerciante de ornamentos?", replicou-me. "Como está se sentindo, jovem?", perguntou a serpente. "Pior do que no deserto. Lá era meu corpo que padecia,aqui é minha alma. Eu te desprezo, tu és o mais cruel dos criadores, desdenha suas pobres criaturas, que por sua vez não tem alternativa a não ser esse lugar morbido. Nem mesmo o direito de morrer lhas foi dado" ."Terei que matá-lo, mas não se preocupe, meu veneno mata de maeira suave, prazerosa e indolor. Tu entrarás em agradável delírio até seu coração parar. Depois disso, desejo-lhe sorte" O bote foi certeiro, minha morte foi tranquila e indolor. Queria tanto ter agradecido aquela misteriosa serpente.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Sementes secas

Amor, desculpe insistir nesse assunto, mas a esterilidade de nosso amor me intriga. Somos sementes inférteis, que amam e morrem sem deixar vestígios. A humanidade diz se tratar de uma maldição.Mas não acredito mais nisso. Preciso não acreditar. O vaidoso humano fica apavorado ante o seu inexorável destino. Tudo deve findar, não será diferente conosco. Seremos varridos da terra, talvez por nós próprios. Quando a loucura vencer, a dor será desprezada, o pranto sufocado, o mal banido. A reprodução não valerá mais a pena, e o homem buscará desesperadamente criar, em vão, perfeitas criaturas que hão de matá-lo. Deixaremos vestígios a apontar nossa grandeza e miséria aos novos habitantes, que aprenderão conosco o charme cruel dos paradoxos. Toda nossa arte os comoverá, especialmente quando souberem que chorávamos, até mesmo morríamos por amor. Nossos nojentos e envenenados dejetos econômicos os horrorizarão. Perceberão algum tempo depois, o quanto amávamos a vida Sinto que a esterilidade de nosso amor trará sua maior tristeza e o seu maior charme. Não terei a oportunidade de reconhecer minha feição fundida à sua em nosso filho, Nem hei de notar teu delicioso gênio nele. Mas nem tudo está perdido. Bênçãos, compromissos legais, filhos, nada disso nos prenderá. Portanto, nosso amor não há de tolerar acomodação, tédio e desprezo.Amores estéreis são um fim em si mesmo. Nada além de afeição e encanto mútuo nos manterá juntos. Esse é o charme de nosso maldito amor. Ele terá de ser constantemente reinventado,a rotina será nossa inimiga, a criatividade um dom imprescindível. Às vezes, fico angustiado ante à minha limitada imaginação. Fico apavorado em pensar que um dia tu me poderás dirigir um entediado olhar, o que custará a morte de nosso cupido. Faça tudo, mas por favor, imploro-te que nunca me faças sentir-me desinteressante!

domingo, 7 de dezembro de 2008

Ensolarado dia

O sol raiou forte, abençôou minha alegria. Saí andando pelas ruas, procurando divertir os homens. "Os homens precisam da minha otimista poesia?" perguntei ao carrasco de olhar tranquilizante, igual ao das pobres camponesas que enxergam a Virgem Maria . "Sim, claro, o sol por si não desperta pensamentos bons. Recomendo que vá ao bar dos artistas, pensadores e demais escórias". Cheguei arfando minha onerosa beleza. Logo ouvi cochichos,"Que indecente, como sua alegria é mórbida,seu sorriso é ultrajante". Pedi uma suave cerveja e pus-me a espalhar bela poesia, através de guardanapos e inocentes pobres diabos, que a entregavam ingenuamente, alegando serem arautos de agradável amante. Meu estado de espírito se excitou, e logo estava inquieto, olhando para toda parte, engasgado com goles mais difíceis de tragar, à procura de flertes de gratidão e admiração. Nada aconteceu, além de ira. "Queres competir com Deus e sua magnífica obra? Quanta petulância, não passas de verme, canalha", responderam-me. Sim, Deus também me disse isso, respondi. Meus olhos entristeceram, fiquei acabrunhado, maquinando como seduzir os homens. "Só posso seduzi-los incitando-lhes o fascínio que têm, inconscientemente, pela tristeza e a miséria", concluí. "Sei onde podem encontrar monstruosos crimes, prostitutas estripadas por terem sido mercenárias e desagradáveis, serial killers que matam quem não sofre. Recomendo-lhes, portanto que sofram, penitenciem-se, só assim terão salvação. Quanto maiores forem suas penitências, mais fácil entrar no paraíso". Fui aplaudido, ovacionado. Fiquei muito melancólico. Pedi um forte destilado e chorei por ter que danar os homens para satisfazer minha vaidade. Um velho de olhos azuis, que denotaram ter ele espírito jovem, veio me consolar." Vamos, para qualquer parte, minha laciva carne está, excepcionalmente, desejando espírito" disse-lhe.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Extrema -unção

Padre, terei eu salvação? Em nome da revolução e de ideais nobres, cometi as piores atrocidades. Meu pendor diabólico começou aos 20 anos. Meu maior crime foi assassinar o matrimônio dos meus pais, por considerá-lo infeliz e fracassado. Contei para minha mãe, em tom de reprovação e desprezo, o adultério do meu pai. "Vamos embora dessa cidade imunda onde viemos parar pela incompetência de meu pai. Somos estrangeiros, aqui; você vive o dia inteiro sozinha, amedrontada pela dependência que tens sob todos os aspectos desse homem que não lhe ama, que lhe deu dinheiro, mordomia e filhos, mas não afeição, admiração, carinho. Meu pai te prostitui, você não vê? Você vive só nessa pasmaceira, nesse calor, sentada na privada, fumando e angustiada ante a possibilidade de ser sepultada nessa terra estéril. Vamos, mãezinha, para alguma cidade litorânea e alegre. Esqueça meu pai". Minha mãe ficou atônita, vi seu rosto desesperar-se ante os meus convincentes e irrefutáveis argumentos. Partimos, mas logo em seguida, entristeceu-se irremediavelmente, ficou muda, chorava à toa, dizia enfurecida "Maldito, você não devia ter me contado. Só agora vejo que seu pai era um anjo. Sou a ele grata. Dormir sozinha sem ter alguém para contar meus dias, dividir minhas aflições. Ele sempre acalmava meu espírito intranquilo e pessimista, embora soubesse que tudo o que ele falava era mentira. Ficar velha e sozinha é a pior coisa que pode acontecer a uma menina romântica, que sonhava, na juventude, ter apenas uma casa repleta de crianças, uma cozinha amarelinha e um dedicado marido" "Você só teve os filhos, e filhos até uma cadela imunda tem" repliquei, "Cale-se, ou eu te amaldiçôo! Seu pai era minha única ilusão convincente, você acabou com ela. Que sabe você do que se passava entre mim e seu pai, que conheci na minha festa de quinze anos? Ele me amou muito. Quando mostrei a ele pela primeira vez meus seios ele não conseguia falar de tanto encanto" "Mas depois que você engordou, pariu uma ninhada de filhos e envelheceu, ele arrumou outra, você é uma idiota mãe? Como podes ser grata a esse monstro?" "Não é verdade, maldito" dizia chorando doloroso e insano pranto. Querendo a felicidade da minha mãe, acabei matando-a. Meus irmãos tiveram que tomar partido, havendo horrível cisma na família. Nossos natais nunca mais foram felizes. Quanta pena sentia da minha pequena irmãzinha, um doce, um encanto de ternura e bondade. Sentia-me culpado por tê-la impedido de viver os natais alegres de antigamente. É horrível ser o caçula, ainda mais quando se é temporão, não se têm avós, os pais já estão velhos e apáticos, os irmãos todos casados. Quanta solidão minha pobre menininha deve sentir, perguntava-me? Ela não reclamava, nunca ficava triste, passava o dia inteiro brincando com suas pobrezinhas bonecas. Dizia-me com sua doce voz "Se eu tivesse sido sua colega de escola, convidaria você para ser meu amigo. Entendo por que não teve amigos na infância, você é muito diferente, você parece homem e mulher ao mesmo tempo", ou "Mamãe vai melhorar, maninho" . Eu não me aguentava, saía de perto e chorava até soluçar. Padre, diga-me que os seres humanos não podem ser julgados, por favor. Não podem. Ninguém pratica o mal por prazer, ou de maneira totalmente consciente. Somos um navio sem bússola a navegar no vasto mar. Serei absolvido, preciso acreditar nisso, para não me gelar de medo quando sentir o mau-hálito da morte, semelhante ao dos velhos.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Beardsley´s illustrations for Wilde´s Salomé


"A carne deseja o espírito, mas não encontra reciprocidade. Beija-me, infame profeta! Ou a desgraça varrerá nossas vidas. Veja como a lua está pálida.Está a apontar a véspera do assassínio"
















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"Já que me recusaste teus lábios vermelhos e quentes, hei de beijá-los frios e pálidos pela morte. Que tristeza seu corpo sem espírito. Era teu espírito, e não teu corpo, que sempre desejei"









































"Já que me recusaste teu beijo vivo e quente, hei de beijar teus mortos lábios pálios e gélidos. Ninguém terá esse privilégio, embora não o seja. Não desejavateu corpo, mas teu espírito"

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Moonlight lover

Como a Lua, sou insone, velo pelo sono pesado dos trabalhadores, leve e intermitente dos solitários, atormentado dos loucos. Ás vezes consigo ouvir gritos dos que têm pesadelos. " Você não foi pai, foi um canalha, anhh" dizem alguns sonâmbulos. Vejo o demônio sobrevoando a cidade rindo sarcasticamente das misérias que só cabem ao breu da madrugada. Anjos preocupados operam milagres comoventes, provêm encontro para os ingênuos e insossos solitários que saem à cata do amor em pleno inferno. Evitam o atropelamento de bêbados expulsos dos bares por profetizar o apocalipse, que, depois, acham misteriosamente mais dinheiro, pedem a Deus, secretamente, que o mundo continue, e choram lágrimas que abençoam todo paradoxo. No entanto a batalha é árdua, e ao final, inferno e céu necociam temporário armistício. O demônio tem os seus:transexuais entorpecidos quebram bares, jovens pálidos e consumidos pelo vício, que, no entanto, guardam resquícios de beleza, escondem-se em pardieiros abandonados para gozar tranqüilamente, mas não conseguem, pois, para eles, até o prazer se fez chaga. Pedem em vão pela piedade dos que passam gargalhando, acabam com a graça de suas frívolas piadas, e recebem cusparadas. Agradecem, admiram-se, pois há muito não recebiam qualquer coisa que fosse do mundo. O viciado é o único desgraçado pelo qual o homem não sente pena.Parto procurando emoção. Depois de insosso sexo com alguma pobre mulher, fatalmente acabo, lá pelas tantas, na porta da sua casa, embriagado, tocando insistentemente a campainha, suplicando ver seus olhos, ao menos. Preciso do seu corpo, o dia não pode amanhecer sem que eu acredite ter os anjos vencido. Para isso, preciso me convulsionar de gozo. Não sou atraente, mas sei o que te excita em mim: meus sinceros, efeminados e sutis gemidos, meus olhar tarado de quem sente doloroso prazer, minha boca a sorver com volúpia seu contaminado sêmem, meu descontrole que me faz cravar as unhas no teu pescoço, nos teus cabelos, deixando em você estranhos e contraditórios vestígios. "Puxa, você brigou? Tem uns arranhões profundos na sua nuca. Você sacaneou alguma mina?", perguntam seus amigos trogloditas. Inocentes, não lhes é muito evidente que arranhões na nuca só podem ter sido meus. Kisses from your moonlight lover!

Civilização

A civilização é intrigante espetáculo grotesco. É um mundo de aparências, sendo a reputação o bem mais precioso e perseguido. Exige-se, para tal, comportamento cuja perfeição reside na dissimulação, nos sorrisos falsos, gargalhadas forçadas e vexatórias, conversas fúteis, maquinações pecuniárias vulgares e mesquinhas, humor sarcástico, picante, inteligente, às vezes negro; estado de espírito sempre alegre, otimista e sóbrio. O bom senso também é bastante apreciado, sendo qualquer polêmica desconcertante logo rejeitada, principalmente por mulheres hedonistas que ao sentir algo desagradável, enfeiam o rosto com expressão de descontrole, mudam de assunto, chamam o garçom e rogam por outra taça de champanhe. Os choros são ignorados, a dor, maldita. A feiúra salta-lhes aos olhos, sob a forma de algum faminto, apático pela subnutrição a pedir-lhes em voz inaudível e desgraçada uma miserável moeda. São cruelmente ignorados, alguns civilizados mais sinceros confessam secretamente inspirarem-lhes esses episódios desejo assassino. Queimemos as favelas, cochicham para seus amigos mais íntimos, que se riem diabolicamente. Que ser humano agüenta tamanha tortura? Essa é a aparência da civilização, que tendo horror à miséria, acaba tendo asco de si mesma. Diante de tanta falsa beleza, imploram por algo verdadeiro, tarefa difícil, pois nosso imperfeito juízo nunca conseguirá acessar a verdade presente nas coisas, a não ser por intuição transcendental. Tudo não passa de ilusão vestida de verdade. É consternador o discurso insano dos que acreditam serem sua ilusões verdade, juram terem sido salvos. Intriga-me os atormentados e arrependidos pecadores que precisam ouvir diariamente “Jesus te ama”, os que se fanatizam e dizem que amam a humanidade, mas que não a aceitam, paradoxo lamentável. Mas quem sou eu para condenar a loucura, conseqüência obrigatória do intelecto. Alguns buscam beleza, os mais sensatos aprendem a vê-la no grotesco, que está por toda parte e é mais abundante. Preciso tornar-me masoquista, senão morrerei. Como todo mundo, haverei de cometer barbaridades para não perder meus pensamentos, e enfrentar a mais cruel das despedidas: a de mim mesmo.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Bleeding love, reparem na curta cena, ao final, dos mantes suicidas

Maldito amor

Que sorte a minha, de vir ao mundo sob o signo do amor maldito, erro que, como tantos outros, desafiam nossa superficial filosofia. Dizem que o demônio e Deus são coisas completamente distintas, mas como isso pode ser possível se são Criador e criatura? Amam igualmente os homens, só que de maneiras diferentes. O diabo é um inquieto, aventureiro e persuasivo amante. Sua sedução é intrigante , tem o charme dos espetáculos de horror, canta a danação de toda criatura verdadeiramente inteligente, não resignada. Comove-nos com seus belos ideais revolucionários, que quanto mais são usados para nos salvar, mais nos torna miseráveis. Ficamos escravizados por seus ideais utópicos. Ao final, ao som de música genial, desesperado e sem saída, suplica que morramos um nos braços do outro, com o gole amargo de arsênico, depois de exaustivo e derradeiro prazer carnal, única criação divina isenta de suas objeções. Partamos, estou cansado do limitado repertório da Terra. A maior revolução é a morte, afinal. Desperta em mim curiosidade irresistível. E assim, depois de alguns dias, já fedendo, dois corpos entrelaçados e contorcidos são achados, com olhar profético nele e triste no seu amante. Benzem-se os corpos, rezam-se pelas suas almas, e os separam em sepulturas distintas. Como podem dois amantes se matarem?-perguntam-se as inocentes criaturas divinas.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Deus lhe pague

Minha solidão é crônica, não a suporto mais. Confesso que sou um ator medíocre, toda platéia me abandona. É sempre assim:no começo sou aplaudido, no meio começam os bocejos e, por fim, a vaia. Os espetáculos sempre terminam em algum botequim sujo, onde trago cachaça barata, de preferência a mais forte, até desmaiar sobre o balcão. Não bebas mais, aconselham-me. Deixa-me, os direitos humanos asseguram o direito de se envenenar. Enquanto não desmaio, minha compania vai se tornando mais agradável. Na véspera do entorpecimento total, tenho a impressão de soltar gargalhadas, escandalizando os felizes amantes, intrigando os mendigos, preocupando o dono do bar. Não sei como, acordo no meu pobre quarto, cujas paredes velam pelos pesadelos, gritos, desesperadas epifanias, que me fazem mijar de medo, amores apressados e pagos. "Meu anjo, você não vai gozar? Tenho que comprar leite para as crianças, a fila tem que andar, apresse-se" dizem os seres menos hostis. Acordo consumido por demoníaco prazer, o gosto amargo na boca, o cheiro de urina. Tomado por ímpeto de esperança mescalda a desespero, corro até a janela, encaro o primeiro transeunte, não importa qual, suplicando salvação. Às vezes, em delírio, não me seguro e grito: venha viver comigo, pelo amor de Deus! Não sou um monstro, juro que não!!! Me desfaço em choro doído e anônimo, nunca ouvido, como a maioria do pranto humano. Tomo banho, saio depois de um trago, ponho meu caixote na rua, subo em cima e declamo alguma poesia tola de amor, que aparenta fazer mais sucesso. No entanto, não fui feito para ser arauto da tolice. Não convenço. O desfecho, todos já o sabem.
 
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