sexta-feira, 30 de maio de 2008
Esperança
O título poderia servir a um dos best-sellers de Lya Luft, mas foi o lampejo que me fez sonhar e acordar hoje. Sonhando que eu estava resolvendo uma prova do IRBr, me deu uma vontade de viver, de lutar, de batalhar e de vencer. Embora fosse muito evoluído falar que não me importaria em perder, que o que importa é a guerra em si, e não os seu desenrolar; não, eu quero é ganhar!!!! Sim, porque a vida é guerra, pelo menos para mim. E para a maioria, creio eu. Então, estou escrevendo que tive esperança, porque consegui realizar 68% do TPS do IRBr. Para os leigos, eu até que fui bem na prova objetiva do Instituto Rio Branco. Pois é, estou envolvido agora com diplomacia e seus zilhões de textos de história, geografia, inglês, potuguês....e por aí vai. Seria uma ótima se eu vencesse essa batalha. Eu me adequaria ao mundo, teria um cartão de crédito, cheques, carrinho zero, morando numa cidade legal. Quem sabe meu espírito não se acalmaria e eu, enfim, tivesse sono. Meu inconsciente é o cara mais mal-acostumado que há. Ele ainda não se deu conta de que eu perdi tanto. Meus sonhos são uma miríade de elocubrações de como me salvar. Até sonhar que eu tava num avião indo morar na austrália, eu já sonhei. Eu quero muito gastar meu primeiro salário só com roupas. Terno, gravata, gente bonita, inteligente, de bom gosto, politizadas, viajadas, enfim, o céu! E aquele Palácio do Itamaraty é lindo. Por enquanto, o inferno e seus mil ardis. Indigência total. Like a cat on a hot tin roof!!!
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Idiotia
Ele não falava muito. Aliás, não falava nada, vivia calado. Seus pensamentos fluíam de uma maneira normal, mas ele nunca tinha assunto, nada para compartilhar com ninguém, nenhum caso para contar, nenhuma impressão, nada. As pessoas reparavam naquele fato, e inevitavelmente diziam: ainda não ouvi a sua voz! Assim, perplexas. É que ele já tinha falado demais no passado e não tinha dito coisas agradáveis. Era o tipo da pessoa chata. Que fala coisas inconvenientes, geralmente transbordando seus medos e inseguranças nos outros. Quando ele começava a falar, as pessoas começavam a mandá-lo calar a boca. E, assim, ele se imbecilizou. Ficou complexado de que era uma pessoa sem valor, até mesmo meio esquizofrênica. E morreu espiritualmente. Sim, porque sua carne estava viva, mas seu espírito adormecido. As pessoas são a coisa mais perigosa no mundo, pensava. E para não se frustrar mais com elas, ele se escondeu qual um caramujo dentro de sua casca. A única pessoa que ele se sentia à vontade para dizer seus medos e derramar o seu papo chato era sua mãe. Ela nunca havia reclamado da estranheza da conversa, em especial do seu tom mórbido e desagradável. Ela também tinha a mesma doença do filho. Ficavam os dois lado a lado, trocando poucas idéias e revelando o medo comum de que acabassem num sanatório. Eram loucos e tinham a cosciência da loucura, crueldade sem tamanho. Não há lugar mais terrorífico do que um sanatório. E, assim, ficavam remoendo este medo comum. Era tão difícil ficar calado. Que coisa chata o ser humano ser gregário, sociável, pensava. E assim, fugindo do mundo, sobraram-lhe poucas coisas. Nenhuma amizade, nenhum dinheiro, só a esperança de voltar a ser agradável e até mesmo engraçado, como o fora há muito tempo. Mas o espírito muda e parece que ele tinha sido macumbado. Tornara-se uma pessoa pesada, melancólica, problemática e pessimista. Tudo por causa de um amor não correspondido. A coisa mais perigosa que há é o ser humano.
Ódio
Como é chato ser tratado com indiferença, com aversão, ser excluído do banquete. Lei de Murphy, esterna lei que me rege. Eu estava no meio da loucura das outras pessoas que me circundavam. Elas falavam freneticamente de compras, crimes e doenças . Todas dando opiniões veementes. Duas pessoas não falavam. Eu e mais outra. Eu me senti tão estranho e odiado por aquela gente, que fiquei olhando para baixo o tempo todo, com medo de ser apedrejado. Eu tenho um vício que as pessoas normais condenam e não hesitam em me expor à vergonha da dependência. É que eu não consigo dormir, só isso. Hoje eu acordei no meio de um sonho em que eu era cantor de rua. Tocava bossa nova numa rua de Montmartre. Meu maior sonho. Ir para algum lugar civilizado. Sonho tão longínquo, tão inacessível, tão difícil de ser realizado. Pois é, a reunião familiar, sim, aquelas pessoas tão ameaçadoras eram da minha família, terminou quando o zelador da paz , da normalidade e dos bons costumes foi embora. Eu já não agüentava mais a sua presença. Ele acabou com o meu domingo. Eu tenho pânico ao vê-lo. Ele já me fez muito mal. Ele perquere, fuça, escaramuça tudo, até descobrir algo errado e punir com rigor. Como eu o odeio! Ele está matando minha melhor amiga também. Ela está realmente mal. Não conversa e fica com cara de quem já morreu. Com os olhos fitando ao longe. Olhos lacrimejantes. Eu não agüento mais gente religiosa. Nãso sei porque, mas Deus não me toca jamais. Prefiro acreditar em santos e anjos, e mesmo , nos Deuses gregos. Jesus não passa de um déspota, que em seu evangelho não hesita em dizer que só ele é o salvador. Quero uma outra via. O prazer é o meu deus. O prazer, que é tão condenado. Bom mesmo é sofrer. O culto ao sofrimento é um sadismo coletivo. Sadismo esse que oculta em si uma pontinha de prazer. Tudo é prazer. Prazer é o que move o ser humano. Não ter dinheiro no bolso, tomar cachaça barata. Parece relato de indigente. Pelo menos eles têm mais liberdade. Sim, tocando bossa nova em Montmartre. Foi assim que eu acordei hoje. Com o espírito na boemia, na noite, nos botecos enfumaçados e barulhentos, nas mulheres liberais, nos poetas de botequim. Será que Montmartre ainda é assim? Onde reina Dionísio? Eu queria ir para este lugar. Eu queria ir para a civilização. Nesses lugares onde o amor brota, onde há consolo. Onde há charme, magia e ilusões. Onde o medo é apenas uma vaga lembrança. E a solidão, impossível. Esse seria o meu céu.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
à espera de um milagre
Eu tenho minhas esperanças calcadas em coisas frágeis e não muito confiáveis, tais como o sonho de um amigo, ou a profecia de uma cartomante. Todos eles disseram que eu mudaria de vida, que levaria uma vida melhor. Vivo a vida imaginando quando será o milagre da metamorfose. Porque por enquanto sou larva, mas quero ser borboleta. Não suporto a idéia de que eu apodrecerei ainda como larva. Tudo na vida é tão difícil. A luta é um imperativo universal. Ou vc luta, ou vc morre. E eu estou cansado dessa lei trabalhosa. Analisar números, lidar com contabilidade. Tudo o que me foi designado para trabalhar é chato. Vejo que já estou mais acostumado com as misérias da minha vida. Eu tenho tanta saudade do passado. Eu já morei na melhor cidade da América Latina, já estudei na melhor escola da América Latina. E hj estou com o peso da pobreza da América Latina sobre as costas. Eu não agüento mais tanto calor. Não agüento mais o norte do Brasil, com o seu sotaque cafona e sua trilha sonora mais cafona ainda. É duro não ter fé, no meio da cidade que tem mais igrejas por metro quadrado. E onde a crença em Deus é uma premissa fundamental. Aqui, as coisas escuras andam veladas, discriminadas. As transgressões são mal-vistas. Pessoal muito católico e conservador. As horas passam devagar e cada respiração me cansa. Quero ir embora pra casa. Quero os meus psicotrópicos. Quero cachaça. Quero fumar.
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